RETORNO PARA CASA


Ao todo já morri cinco vezes. Talvez ache curioso este fado - porém, este corpo ainda poupado da velhice há muito já não se lembra da criança que outrora foi. Morri cinco vezes e mesmo que não note nunca me recuperei totalmente - sigo aos pedaços o que meus tecidos tentam em vão recuperar: aquela parte de nós que quando se vai, comprova a irreversibilidade da morte, do que apenas deixa de ser o que era.
A primeira vez que morri soube que não era extensão de minha mãe. Brotaram-me dentes nas gengivas e ao sinal da menor mordida em seu seio sentou-me o tapa nas nádegas: "menina má!". Devo ter chorado, não me lembro. Hoje choro frente a perspectiva de descobrir-se tão só no universo.
A segunda vez que morri me afoguei. Havia certa ideia não muito trabalhada sobre acreditar na invencibilidade que meu corpo acreditava possuir... Sempre fui pouco exposta aos perigos que não incluíssem subir em árvore ou pequenas covas no jardim. A falta de ar e o fogo que adentrou os pulmões naquele pequeno mergulho me mostraram - dolorosamente - quão frágil o corpo é.
A terceira vez que morri foi quando me apaixonei. Neste ponto sou obrigada a discordar dos grandes filósofos: libido é pulsão de morte. Uma procura insaciável por algo que não me lembro ter perdido.
A quarta vez que morri foi quando perdi meu pai. Castraram-me as palavras. Ainda não me soa correta a vida sem ele. Ainda aguardo seu retorno, e aqui, de forma singela, a morte mostrou-se de maneira mais cruel: leva um pedaço que até então você não sabia possuir - e logo após, mata-te pela última vez: onde incapaz de continuar, te dá forças, e você compreende que apesar de toda ela, de tudo isso, está vivo.

lambari

Não me reclame os versos que não fiz. Houve um tempo que aqui era correnteza de lágrima e em meu leito rochoso escoavam emoções, tais quais fez correr em decrescência seu si lá mi. Tudo que era encanto trazia encravada a apatia que o tempo impõe em sua majestosa vaidade nos ensinando que não, nada é eterno. E a finitude de tudo cavou fundo e fez-se lago nesta menina - que nos dias atuais ora transborda, vez ou outra seca, dá vida e a tira, sendo pelo tempo que durar escara cravada em pedra de onde brota água doce de beber.

oração

A gente morre - todo dia. Quando apático aos olhos alheios faz-se piada do sofrimento imposto e uma mão estendida é sinônimo de rosto virado que faz às vezes de quem "não viu", "não sabe". Dessa gente santa que se cega às próprias custas frente aos pequenos impropérios cometidos, mas que munidos de punho e sangue ferozmente dilaceram a carne fraca e ruminam a cólera que reverbera nossos dias. Morre-se na cruz apedrejada e no pecador não bem vindo nos reinos do céu. Pois ali há de ser um banheiro impecável de azulejos e cristais, e deus, este pobre coitado, criatura fadada a limpar para sempre e todo o sempre a oratória "do bem" que regurgita nos nossos tempos. Se possível de uniforme, claro. Amém.

preateritus.a.um

Havia promessa feita de que me comporias todas as rimas que ainda não houvessem neste mundo... veja só, como são doces os sonhos de menina: cândura virgem frente à vividez que cruelmente os anos - e o mundo, e as cousas, e as gentes - haviam retalhado em seu peito, onde logo aprenderia que nunca éramos somente nós toda aquela bagunça de pronomes pessoais. Ansiosa respirava o futuro do nosso pretérito, meu mau português não me permitira uma boa conjugação verbal e você, meu professor, oratória graduada ensinava-me imperativo: compõe tu! E via em mim o que não via em ti - flor que havia tardado em seu florescer, era eu enquanto você já havia sido.
Nunca abandonou-me o tempo verbal: hoje vivo o presente mais que indicativo da ação que é tomar a própria vida pela mão e com ela enamorar-se. E uma coisa te digo: componho eu mesma as mais belas canções que já ouvi.
Do latim amor, era seu nome próprio.
Debutava-me as vontades que trazia, 
me fazendo sua menina
(outrora tola e distante) 
que após construção deste ninho
suas penas macias
- uma por uma -
fez pouso em minha vida.
Cabelos louros,
filho de Vênus,
faça de mim Psiquê;
Porque te amo?
Porque me permites...
Eu não consigo ir embora de mim a pé:
meus corredores coloridos com palavras
a altura inapropriada que este vinho me permite
- mas eu vou - digo
- já foi? - perguntas
- ainda não. - respondo
- você um dia volta? - tu
- não. você um dia vens? 
Se cruzares meu caminho,
e na direção de que vim, tu for
cata-me os sonhos não vividos
recicla as anedotas descartadas
tempera as palavras descuidadas.
Que neste mundo nenhuma oportunidade é perdida e
nenhum erro incorrigível.

eu quero entender

Asfixia-me os acordes que não aprendi
sede de música que em vida é como carvalho [já vistes um?]
sabe a harmonia que nunca entendi?
pula oitavas em direção a tua barriga
umbigo
desconheço de timbres e estremeço a cada nova vibração sonora
você em clave de fá
desatento ao meu bem querer
teus dedos em uníssono com minha palpitação
coração em pentagrama
eu sustenido
tu bemol
nessa escala temperada
pinga-me azeite
e beba.

crise simulada

Respeitável, público!
Na estréia de hoje convido você - senhora, e você - pimpolho, a experimentar o recomeço de uma nova era! Pois veja, meu caro, que nada é passível de ser novo sem já ter existido antes. Que nenhum sonho é sonhado apenas uma vez e - até hoje - esta humilde que vos fala nunca viu fé que não foi outrora questionada.
Que maravilhosa juventude!
Reinventa-se nos velhos hábitos já gastados por seus avós e permite-se a deliciosa chegada dos mesmos erros já vividos por seus pais. Nascem e morrem na deliciosa alvorada do antigo - e que gozo!
Agora entenda que o ritual antecedente ao advento deste mausoléu inveterado sempre é carregado de promessas de grandes alvoradas, nascimentos e assim - vida! - pois tudo o que é novo é supostamente belo, e na procura de desfazermos do que já existe apenas trocamos aquela roupa de linhas simétricas por algo como o boleado das curvas que gera o prazer inocente do "novo". Ai, o assimétrico!
E como no "antes", este "novo" que ressurge e suas incoerências obsoletas refletem nosso mais belo espírito de ferramenta institucionalizada por - quem? sei lá. Mas nunca fui eu toda essa demolição de mim mesma - para, no fim, voltar a ser o que era.

VIDA NOTURNA

Tudo o que escrevo é rascunho descartado em papel de pão.
Veja só: certo dia caminhava pelas ruas numa madrugada nem quente e nem fria, de nuvens esparsas - para conhecimento do temperamento daquela noite e enriquecimento da descrição - quando cheguei a uma avenida dessas largas e onde as cidades, num ato de gentileza, diminuem a quantidade de edifícios e possibilitam uma melhor visualização dos céus. Meu passo não muito apressado, levemente etílico, estarreceu-se com a visão e travaram-me os pés dançantes no asfalto e eu - num sentimento de pequenitude que somente os que em momentos de susceptibilidade alcoólica e coração um tanto comovidos demais entenderão, apiedei-me de mim mesma e de minha nadisse frente à tão belo corpo celeste, confirmação de que o paraíso haveria mesmo de existir e que o inferno nada mais é que esta vida medíocre que segue na terra. Ah, o infinito, o amor, deus, tudo era real frente à tão bela paisagem. Minha moon, nossa Lua, satélite natural da terra, único, firmamento e paraíso. E então decidi. Era preciso compartilhar aquele momento com os que amava. O mundo precisava saber que ainda havia esperanças. Saquei o celular e fotografei, sagaz, impetuosa e destemida. E caro leitor, caso você já tenha se encontrado num momento desses, de extrema intimidade com o universo e com o místico entenderá completamente o que se sucedeu nos momentos seguintes quando conferi tal fotografia. Minha Lua impetuosa tornara-se apenas um borrão branco amarelado numa tela preta disforme. E rapidamente dissipou-me as emoções que outrora alimentava. A sobriedade atingiu-me embrulhando um estômago que nada carregava e frente à tão triste conclusão vomitei sabe-se-la-o-que no meio-fio que não se distanciava. Ora se a vida não é isso: maus reflexos de grandiosas coisas. E então entendi que nenhuma experiência pode ser realmente trespassada. Todos precisam vivê-la, e revivê-la, e sentí-la e sê-la... Os olhos vêem, a boca fala, mas somente o coração, e este só, sente. E assim, vivemos.
"O essencial é invísivel para os olhos".

distanásia

Houve um dia que um homem
um homem conheceu uma mulher.
Era ele epopeia, ela verso-livre. 
Ela, trilha
Ele,
escadaria.
Houve um dia que um homem
um homem amou uma mulher
Era ela sonhos, - e ele vida.
Ela, samba.
Ele,
erudita.
Houve um dia e então,
já não era mais dia.
Era ela morte,
e ele, e ele...
obstinação obrigatória
pela vida.
O brilho de meus olhos já não eram meus
- refletiam-se nos teus.
E quando apagaram-se os seus
- era eu noite,
noite e dia.

Yemanjá

Nasci mulher - cínica em minha natureza. Ventre fértil que aos homens deduz algum tipo de fraqueza que não reconheço em meus braços. Eu - convicta dadeira ou virgem menina - duas em todas as vertentes, mas o que eu estou falando? Sou mil e uma e alguma há de agradar-te, mas não me perturbaria seu ódio, desde que honesto. Boca aberta sempre e minhas palavras nem sempre me traduzem muito bem: uma hora serei mãe e alimentarei teus filhos, doação eterna, danação materna. E no momento seguinte, ai meu deus! São tantos os filhos no mundo! dá licença, e os cabelos decoraria com fita pra na rua ter brilho de estrela - carreira de artista - rosto de menina. Minha mente, meu caro, há de exercer esse fascínio feminino sobre seu corpo e teu desejo risca-me em rajas de olhares furtados quando faço de conta que não vejo. E logo em seguida haverá de dar no saco toda essa jogatina e então vai pra casa e descansa, me esqueça até amanhã. Bruta, Iracema, meus dedos e meus quadris - minha força é meu conjunto. Sua mente perdida, que apesar de não mais me querer, há de amanhecer faminta e em meus braços procurará trégua. E me come, me bate, me consome a vida - deixa em mim todo esse sofrimento que n'outra hora será alegria. E há também todos estes outros que virão e que após fazer casa - sala - festa, embora irão e eu - esquecimento. Haverá alguém a topar este namoro e em mim provar de todas as traições, meus merengues e seios fartos. E recomeço, faço novo, de novo, minha parição afroditiana que nesse mundo faz novela, simula, ama e abandona à própria sorte. Eu sou mulher, saravá! Adeus e olá.

Águia

Sobrevoô teu céu em círculos - em mim tantos pontos internos que resultam nesse ciclo. Avisto de longe tua noite e teu dia, incansável e sedenta rapino. A delicadeza de tua carne fraca frente minhas garras - e minha covardia bruta frente à dois olhos de menino. Qual a distância ao nosso centro? A sucessão de meus atos não leva a nenhuma constante - reconheço minhas falhas - a cada novo voô, não tarda a cair-me as penas e desnuda tocar o chão. A realidade carnívora que tema em chegar a todos nós e ferir-nos a pele. Mas há este pedaço de mim que já é teu e então exijo que o tome! Cessa minha caça e seja pouso e ninho - seja em mim o que serei em ti, insígnia que perdura em teu corpo o que há muito tempo levo em mim.

sobre crianças

Esqueço-me de minha finitude pelas manhãs e durmo tão próxima à morte todas as noites. O que trespassa ao longo do dia é aquela navalha afiada da mesmice diária - papéis carimbados, gente engravatada, ônibus lotado. Meus passos caminham pelos mesmos que outro alguém caminhava e na falta de emoção que o cansaço impõe apenas sigo conformada com a ideia de um bom par de chinelos. E era esta a bandeira que a vida adulta me pregava quando era apenas uma criança? O novo sempre parece atraente demais - e ainda acostumamos os olhos com o belo e esquecemos da gratidão frente à tudo que nos é dado, o novo dia e o alimento. Acredito que seja por isso que gostemos tanto de crianças: quando se cruza o olhar com uma renasce a candura que há muito não se nota no mundo aí fora. Gente grande não te olha dentro do olho, mas já percebeu como uma criança as vezes, sem o menor constrangimento, não desgruda o olhar de você? Coração cansado ainda bate - e dilatando-se transborda.

Puta

Desnudava-se com a mesma facilidade das putas paulistas na augusta. Não que tivesse feito escola pra isso! jamé, rapá. Apenas apreciava o olho de cobiça gratuita que seu rico corpo despertava. E foram tantos olhos e línguas e mãos que a percorreram que num momento já não era ela – tornara-se livro de lágrimas de outrem que em seu peito, feito mãe, havia consolado sem saber uma palavra ou um afago de conforto. Crescera puta numa sociedade que a subjugara a mero buraco inerte de prazeres de terceiros que nela – para seu desentendimento – agora encontravam a paz do desabafar sem julgamentos, dessas conversas que se jogam fora, da raridade de dois olhos atentos. Com a mesma rapidez que tirava a roupa aprendeu que as pessoas abrem a alma – e este ser livre, que taxada puta por escolher amar, difamada por uma sociedade que não lhe incluía agora trajava o sofrimento de mil homens infelizes que em seu ventre retiravam suas máscaras, e na honestidade de um gozo encontravam forças pra continuar. Essa menina retirava do corpo tudo o que não lhe pertencia, e assim, era ela, somente ela, quer a chamassem vadia ou não. Puta ou não. Por ela, mulher. Aborto de um país que vira as costas – e joga as pedras .

duas estrelas

Minha binaridade me preocupa: ora sou dois olhos que vêem o mundo tão amarelo e bondoso, pra num tropico - bosta! perde-se tudo na boca suja que mal-diz a vida, o tempo seco e a vizinha. Minha maleficência caminha toda enfeitada em seus ruminares e falácias que as vezes nem nota a benevolência que passa distraída e sem expectativas num simples "bom dia" que me esqueço de retribuir. E eu, centro de massa comum desses dois corpos celestes que em mim orbitam, ora boa, ora má, apenas antevejo a colisão que logo se dará: e então, meu amigo, serei estrela cadente - iluminando o céu do que é bom e do que é ruim, no espetáculo da humanidade maniqueísta que rondam esses dias.

Archangelus

Era eu Babel em meu plano mais profundo: humana demais, logo em mim a necessidade de aproximação de deus - narciso que me habita e lembra: - é tu a imagem e semelhança-perfeição. Ignoro meus erros e dedos em riste apontam as idiossincrasias do mundo, assim esqueço meus tantos defeitos: sou deus este que em sua trajetória arrependeu-se, amou, vingou-se, matou. E assim a vontade de aproximação do pai - elevo a mais bela torre, o caminho aos céus, eu-babel. Eis que me confunde o pai: atordoa-me a língua e criatura que antes oratória agora não mais compreende seus irmãos. A solidão perdura - meu lamento não mais acolhido por quem me rodeia - palavra que perde o sentido frente à qualquer emoção - fecho os olhos e oro: um pai também erra.

Laranja


Havia algo no pôr do sol que repousava sobre a cidade... minh'alma ficando pra trás no laranja que cobria o lugar onde meu coração havia ficado. Despedi-me de mim sem adeus e sem lágrimas, não era a primeira e nem a última vez, porém a mais triste. Este corpo que a tempo já se habituara a despedaçado ficar espalhado em casas e n'outras estórias agora perdia o próprio coração, como pode ver. Havia o deixado sem notar e assim, partindo sem pretensões de voltar, não pude recuperá-lo. Há talvez algo em mim que o faça de propósito: entrego-me demais. E notando este erro conscientemente não o corrijo. Lido com tudo que me desperta a emoção apenas com o silêncio de um par de olhos baixos e o grito mudo guardado no peito deste coração que me alardeava demais. Sendo assim talvez não o tenha apenas perdido ou esquecido inconscientemente, mas sim, quem sabe, talvez, o abandonado a própria sorte, no relento de algum quintal, ou desprotegido em qualquer par de mãos, para que uma menina, essa menina, possa enfim respirar. 

Eu sinto muito, mas eu sinto demais.

[travessão]:

Não sou de pouca conversa - falo muita bobagem - mas nunca fui de me abrir assim com os outros. Me parece insensato demais ocupar ouvidos alheios com as dificuldades que eu mesma não consigo enfrentar. Costumo escrever não como quem o faz pra fora - mas sim pra dentro. Rumino cada sílaba o tempo todo - volto, retorno, apago, não me entendo, repito. Me prende o antagonismo da vida - a sobremesa após o almoço - um bisneto no colo da avó - essas brincadeiras irônicas que a nós são impostas dia-a-dia. Acho tudo muito dolorido - e de tão triste me parece que a vida é bonita. Ou ela é bonita demais e por isso eu seja triste... Enfim, apenas não sei. Entende minha dificuldade? Eu não sou boa de prosa, mas eu não falo pouco. Ocupo esse vazio com intenções de felicidade e assim me esqueço a todo momento: a vida é difícil. E é uma só. E isso que me magoa... O oposto de viver é morrer, e apenas nesse ponto, onde tudo é dois, me parecem que as pessoas vivem meio mortas, um algo só.

Adeus

Então era o adeus. Quantas formas de adeus conhecera? Havia enterrado um cão certa vez na infância - porém não se lembrava do sentimento de peito escavado que ali agora presenciava. Quantos amigos havia deixado pra trás? A sutileza do tempo é dispersar o que amamos lentamente - quando se vê já é o fim. E de repente tomada assim - gesto profano de um coração duro que apenas dizia não amar mais. Crescera nessa mentira hollywoodiana de que o amor é suficiente -porém não o era. Desacreditara em deus ainda na adolescência - o coração bondoso não a permitira. Se entregou ao destino desde pequena e este esbofeteava-lhe a cara sem pena. Cresça, infeliz! Vê se aprende: adeus é o tchau mais triste que existe.

me afoguei

Surpreendi-me inicialmente - seu movimento silencioso ao lado de meu esqueleto desajeitado - na escola não nos ensinam nada sobre o amor e de repente me foi nítido que as equações não me ajudariam em nada no mundo ali fora. O contato de seu corpo no meu me afastou - por mais que o quisesse perto - eu uma pobre criança, que não sabia guardar segredos, não sabia pintar os lábios, sequer possuía bonitas calcinhas - criaturinha termoneutra e sem graça. Encurralou-me contra a parede - dali retirei algo da ciência: o que se seguiu com certeza diriam-me os professores ser apnéia. Prendi a respiração, e não compreendia como um corpo sem oxigênio poderia acelerar tanto um coração. Colou seus lábios no meu e prensou meu corpo contra o próprio um tanto sedento demais - e esta criança sem fôlego, sem jeito, náufraga num mar de sensações no qual em nada conseguiria se apoiar. O que se seguiu foi inspiração intensa - água que adentrou meus pulmões - fogo que queimou meu corpo - e então, a morte surge pouco tempo depois. Me afoguei naqueles braços e assim, desejei nunca mais reviver. Na escola não nos ensinam estas coisas.

escrevo

Escrevo em defesa do silêncio estuprado - proparoxítonas gritadas à esmo - contra a rima de meus lábios cerrados. Escrevo a próprio punho a revolta que queima minha pele e se transfere ao barulho grafitado no papel - aqui nada se apaga, nada se perde, nada se é. Conjugo meus verbos em tempo errado - blasfemo contra o correto. Toda essa gente que me grita regra - à merda - eu escrevo. Eu não falo. Eu não digo. Eu não grito. Minha pausa é ponto final, meu grito exclamado, minhas dúvidas, incertezas - interrogo-me em tantos braços - e findo-me em reticências. Eu escrevo porque não sei compor.

dúbio

Hesito frente as partes que brigam dentro de mim. Este útero que grita o filho não gerado - essa jovem que carrega pulsão de morte no seio. A mulher que se achega no colo do amado - esta puta que entrega-se a qualquer galanteio [pois não sou - não sei]. Corre-me essa menina que se diverte na montanha-russa e levanta os braços sem medo - e a criança temerosa que se esconde frente ao brinquedo [eu não vou - me estarreço]. Perco-me nos caminhos traçados - esta parte estúpida de mim que geme o cansaço do descaso - a insignificância do eu - e chora, grita, baba e a outra - que apenas ri de meu desembaraço e coroa-se rainha do acaso - mãe de todos meus desejos. Este lado que me é cego - e este lado que apenas não vejo.

tato

Dos cinco sentidos era tato – o toque. Seus dedos em meu cabelo lembravam-me desavisado: “está viva, vê? Vai sem pressa, pequena. Segue seu caminho”. E talvez não soubesse que iria – ou que indo já não mais lhe pertenceria. Porém, fui. Soltei os dedos que carreavam minhas inseguranças para partir. Ali me despertou o primeiro sentido: era dor – ainda arde minha pele. Lá fora eram outros muitos que me confundiam a textura: uns tantos ásperos, outros tantos avelãs e enfim, um pêssego em minhas mãos. Aqui reconheci meu lugar – achei-me em seus dedos e minha pele era febre matada frente ao seu toque. Continuo sem pressa - minha propriocepção tomou seu corpo e já não me é desavisado seu lugar: pertence junto a mim. Aprendeu a partir e ainda assim, escolheu ficar. A vida inteira me levou pela mão, me subiu pelos braços, acabou-me na boca e a cuspo, engulo, digiro. Alimento-me do que se consome em mim e vivo.

reboco

Era um muro de reboco, mal-arranjado e displicente que norteava o inicio da minha rua. De longe o via: seus rabiscos coloridos da criançada que ali brincava - um raio de sol, um jogo da velha, diversas flores e borboletas coloridas num jardim infantil de maravilhosos rabiscos tortos. E assim, de longe, sabia que estava em casa. Meu descanso começava nas borboletinhas que insinuavam seu bater de asas - porém fixas no cimento cinza e sonso de um muro de casebre desajeitado, e ainda assim, lar de todos. Até que então, certo dia, achei um pedaço de giz no chão - pontinha de nada - cor de rosa, já toda gasta. Não resisti: gravei meu nome e o teu no muro que me mostrava o fim de meu caminho. E agora amanhecemos e entardecemos entrelaçados num rabisco mal-escrito de um muro que me lembra sempre: todos os dias retorno para casa. E meu descanso é em seus braços.

éramos

As manhãs tinham gosto de jabuticaba no pé. Éramos todos meninos - até mesmo as três de saia - e o mundo era o quintal de vovó. Pés no chão que corriam apressados em direção ao melhor esconderijo secreto e mãos e dedos distraídos a se queimar em pequenas taturanas já avisadas da euforia de brincadeiras infantis. Éramos todos crianças - mesmo não o querendo - e clamando por uma responsabilidade que ainda [nem de longe] arriscava a despontar. Quando inventava de calçar os saltos de mamãe - dona de mim - atribuía-me as correrias e insatisfações da vida adulta sem sequer desconfiar que assim haveria mesmo de ser. A filhinha boneca no colo exigia ser levada logo à escola, os aluninhos-peixinhos que provavelmente já estavam a esperar a querida professora atrasada - ó céus! não há tempo, preciso correr. E saía, aos tropicos num sapato 37 em pé 26. Éramos todos felizes - lambuzados de fruta fresca e a insensatez infantil de esquecer que a vida, ela passa, e crescemos demais. Éramos todos lembranças e assim, confirmo que não há de se ter pressa, estaremos guardados para sempre - porém, não deixe para amanhã o que precisar dizer hoje, o dia de hoje só o será hoje. O amanhã é talvez...


vulcano

Foi-se magma que escorreu-me peito abaixo - erupção. Poluiu-me os lábios de enxofre tal qual se fez inferno em meu leito. O diabo me atenta com doces palavras e passeamos meia hora por entre a lava, ele diz: - Vê o que me fustigaram? Vê o que vivo? Tudo acaba em fogo, e em fogo se consumirá. Passio-onis, minha menina, não significa nada além de sofrimento. E este foi meu pecado - amei demais. Eu apiedei-me de pobre criatura - condenação eterna na casa de Hades, a má-fama na língua dos filhos de Eva [corruptos, mentirosos, ladrões]. Todos filhos de Deus, perdidos em desencontros, angústias e sofrimento - o medo de não pertencer - as expectativas irreais e no fim, apenas pó da terra que tudo renegou. O pão que não matou a fome, a água que não supriu a sede, a fé que não pacificou a alma. E finalmente acordo - vulcão - ar que falta à dois pulmões sedentos. Tudo um sonho.

casa

Você não sabe, mas estes caminhos que trilhei, estas mãos que segurei, fizeram de mim lar. E sou sala de estar - festa que convida - amigos no sofá - sorriso que lhe ameniza as feridas de outrem. Eu sou cozinha - mão que alimenta - palavra que sustenta, prato feito de paz. Sou quarto - descanso do corpo, meus beijos espalhados neste rosto que comigo se deita, que na chance de ir - fica, e dorme. Sobe as escadas devagar e não bate na porta, entra aqui, desfaz as malas e minha casa é sua: venha quando quiser, parta quando decidir. Desfaça meus colares de miçanga e bagunce minha ordem, pois eu, eu sou casa - sou fixa e fico - não parto. E essas partidas, já aprendi, sempre deixam algo, e acrescentam mais um cômodo nessa casa.


cama

Não me apaixonei pelo seus olhos entreabertos de manhã que fajutos me beijavam os lábios. Não me convenci com os braços que me entrelaçaram e arrastaram para o banho quente e apertado - contra um abraço espreito à espera. Ignorei a sede que me matava frente à tua boca molhada. E relutei, mordi o lábio, cerrei os olhos, cruzei as pernas, fiz cara de brava. - Eu não me apaixono, rapaz. - E deito aqui do teu lado, abro minha boca - de lábios duros - e digo com essa voz que treme à cada movimento seu o que eu não me canso de dizer a cada palpitação minha: Não vá pra casa ou pra longe de mim, eu não me apaixono. Eu não me entrego. Eu não amo ninguém. Mas fica aqui.

Espera

A falta que me faz são suas coisas que não estão espalhadas pela minha casa. Seus pelos que não ficaram no meu sabonete. Aquele livro que nunca me emprestou. Minhas pupilas ainda reagem frente ao seu calor, e aquele meu disco de Francisco trava onde seu sangue misturava-se ao meu - coração medroso - que pára, não bate, sangra e se esconde frente a mínima possibilidade de felicidade [ou esquecimento]. A realidade bate a minha porta e avisa - vê este aperto? peito murcha, esvazia-se, tudo acaba. E assim lhe deixa (re)começar. Essa angústia que me causa tudo o que ainda não vivi - a sede do último beijo e o medo do primeiro passo - misturadas a falta que sua ausência deixou. Há café em minha xícara, tristeza em meus olhos, vontade em meus lábios e um sol que nasce - infinito em sua majestade - me relembrando a sorrir pela vida que se curva frente à minhas inverdades e chances desperdiçadas de me refazer destes pedaços que me caem pelo caminho. Trago cicatrizes de uma vida curta que a tudo se entrega e agarro-me ao meu amor por tudo. Porque é apenas isso: eu amo. E por amar, só falo bobagens. E espero sua volta no sofá da sala.