sobre crianças

Esqueço-me de minha finitude pelas manhãs e durmo tão próxima à morte todas as noites. O que trespassa ao longo do dia é aquela navalha afiada da mesmice diária - papéis carimbados, gente engravatada, ônibus lotado. Meus passos caminham pelos mesmos que outro alguém caminhava e na falta de emoção que o cansaço impõe apenas sigo conformada com a ideia de um bom par de chinelos. E era esta a bandeira que a vida adulta me pregava quando era apenas uma criança? O novo sempre parece atraente demais - e ainda acostumamos os olhos com o belo e esquecemos da gratidão frente à tudo que nos é dado, o novo dia e o alimento. Acredito que seja por isso que gostemos tanto de crianças: quando se cruza o olhar com uma renasce a candura que há muito não se nota no mundo aí fora. Gente grande não te olha dentro do olho, mas já percebeu como uma criança as vezes, sem o menor constrangimento, não desgruda o olhar de você? Coração cansado ainda bate - e dilatando-se transborda.