VIDA NOTURNA

Tudo o que escrevo é rascunho descartado em papel de pão.
Veja só: certo dia caminhava pelas ruas numa madrugada nem quente e nem fria, de nuvens esparsas - para conhecimento do temperamento daquela noite e enriquecimento da descrição - quando cheguei a uma avenida dessas largas e onde as cidades, num ato de gentileza, diminuem a quantidade de edifícios e possibilitam uma melhor visualização dos céus. Meu passo não muito apressado, levemente etílico, estarreceu-se com a visão e travaram-me os pés dançantes no asfalto e eu - num sentimento de pequenitude que somente os que em momentos de susceptibilidade alcoólica e coração um tanto comovidos demais entenderão, apiedei-me de mim mesma e de minha nadisse frente à tão belo corpo celeste, confirmação de que o paraíso haveria mesmo de existir e que o inferno nada mais é que esta vida medíocre que segue na terra. Ah, o infinito, o amor, deus, tudo era real frente à tão bela paisagem. Minha moon, nossa Lua, satélite natural da terra, único, firmamento e paraíso. E então decidi. Era preciso compartilhar aquele momento com os que amava. O mundo precisava saber que ainda havia esperanças. Saquei o celular e fotografei, sagaz, impetuosa e destemida. E caro leitor, caso você já tenha se encontrado num momento desses, de extrema intimidade com o universo e com o místico entenderá completamente o que se sucedeu nos momentos seguintes quando conferi tal fotografia. Minha Lua impetuosa tornara-se apenas um borrão branco amarelado numa tela preta disforme. E rapidamente dissipou-me as emoções que outrora alimentava. A sobriedade atingiu-me embrulhando um estômago que nada carregava e frente à tão triste conclusão vomitei sabe-se-la-o-que no meio-fio que não se distanciava. Ora se a vida não é isso: maus reflexos de grandiosas coisas. E então entendi que nenhuma experiência pode ser realmente trespassada. Todos precisam vivê-la, e revivê-la, e sentí-la e sê-la... Os olhos vêem, a boca fala, mas somente o coração, e este só, sente. E assim, vivemos.
"O essencial é invísivel para os olhos".

distanásia

Houve um dia que um homem
um homem conheceu uma mulher.
Era ele epopeia, ela verso-livre. 
Ela, trilha
Ele,
escadaria.
Houve um dia que um homem
um homem amou uma mulher
Era ela sonhos, - e ele vida.
Ela, samba.
Ele,
erudita.
Houve um dia e então,
já não era mais dia.
Era ela morte,
e ele, e ele...
obstinação obrigatória
pela vida.
O brilho de meus olhos já não eram meus
- refletiam-se nos teus.
E quando apagaram-se os seus
- era eu noite,
noite e dia.

Yemanjá

Nasci mulher - cínica em minha natureza. Ventre fértil que aos homens deduz algum tipo de fraqueza que não reconheço em meus braços. Eu - convicta dadeira ou virgem menina - duas em todas as vertentes, mas o que eu estou falando? Sou mil e uma e alguma há de agradar-te, mas não me perturbaria seu ódio, desde que honesto. Boca aberta sempre e minhas palavras nem sempre me traduzem muito bem: uma hora serei mãe e alimentarei teus filhos, doação eterna, danação materna. E no momento seguinte, ai meu deus! São tantos os filhos no mundo! dá licença, e os cabelos decoraria com fita pra na rua ter brilho de estrela - carreira de artista - rosto de menina. Minha mente, meu caro, há de exercer esse fascínio feminino sobre seu corpo e teu desejo risca-me em rajas de olhares furtados quando faço de conta que não vejo. E logo em seguida haverá de dar no saco toda essa jogatina e então vai pra casa e descansa, me esqueça até amanhã. Bruta, Iracema, meus dedos e meus quadris - minha força é meu conjunto. Sua mente perdida, que apesar de não mais me querer, há de amanhecer faminta e em meus braços procurará trégua. E me come, me bate, me consome a vida - deixa em mim todo esse sofrimento que n'outra hora será alegria. E há também todos estes outros que virão e que após fazer casa - sala - festa, embora irão e eu - esquecimento. Haverá alguém a topar este namoro e em mim provar de todas as traições, meus merengues e seios fartos. E recomeço, faço novo, de novo, minha parição afroditiana que nesse mundo faz novela, simula, ama e abandona à própria sorte. Eu sou mulher, saravá! Adeus e olá.

Águia

Sobrevoô teu céu em círculos - em mim tantos pontos internos que resultam nesse ciclo. Avisto de longe tua noite e teu dia, incansável e sedenta rapino. A delicadeza de tua carne fraca frente minhas garras - e minha covardia bruta frente à dois olhos de menino. Qual a distância ao nosso centro? A sucessão de meus atos não leva a nenhuma constante - reconheço minhas falhas - a cada novo voô, não tarda a cair-me as penas e desnuda tocar o chão. A realidade carnívora que tema em chegar a todos nós e ferir-nos a pele. Mas há este pedaço de mim que já é teu e então exijo que o tome! Cessa minha caça e seja pouso e ninho - seja em mim o que serei em ti, insígnia que perdura em teu corpo o que há muito tempo levo em mim.

sobre crianças

Esqueço-me de minha finitude pelas manhãs e durmo tão próxima à morte todas as noites. O que trespassa ao longo do dia é aquela navalha afiada da mesmice diária - papéis carimbados, gente engravatada, ônibus lotado. Meus passos caminham pelos mesmos que outro alguém caminhava e na falta de emoção que o cansaço impõe apenas sigo conformada com a ideia de um bom par de chinelos. E era esta a bandeira que a vida adulta me pregava quando era apenas uma criança? O novo sempre parece atraente demais - e ainda acostumamos os olhos com o belo e esquecemos da gratidão frente à tudo que nos é dado, o novo dia e o alimento. Acredito que seja por isso que gostemos tanto de crianças: quando se cruza o olhar com uma renasce a candura que há muito não se nota no mundo aí fora. Gente grande não te olha dentro do olho, mas já percebeu como uma criança as vezes, sem o menor constrangimento, não desgruda o olhar de você? Coração cansado ainda bate - e dilatando-se transborda.

Puta

Desnudava-se com a mesma facilidade das putas paulistas na augusta. Não que tivesse feito escola pra isso! jamé, rapá. Apenas apreciava o olho de cobiça gratuita que seu rico corpo despertava. E foram tantos olhos e línguas e mãos que a percorreram que num momento já não era ela – tornara-se livro de lágrimas de outrem que em seu peito, feito mãe, havia consolado sem saber uma palavra ou um afago de conforto. Crescera puta numa sociedade que a subjugara a mero buraco inerte de prazeres de terceiros que nela – para seu desentendimento – agora encontravam a paz do desabafar sem julgamentos, dessas conversas que se jogam fora, da raridade de dois olhos atentos. Com a mesma rapidez que tirava a roupa aprendeu que as pessoas abrem a alma – e este ser livre, que taxada puta por escolher amar, difamada por uma sociedade que não lhe incluía agora trajava o sofrimento de mil homens infelizes que em seu ventre retiravam suas máscaras, e na honestidade de um gozo encontravam forças pra continuar. Essa menina retirava do corpo tudo o que não lhe pertencia, e assim, era ela, somente ela, quer a chamassem vadia ou não. Puta ou não. Por ela, mulher. Aborto de um país que vira as costas – e joga as pedras .

duas estrelas

Minha binaridade me preocupa: ora sou dois olhos que vêem o mundo tão amarelo e bondoso, pra num tropico - bosta! perde-se tudo na boca suja que mal-diz a vida, o tempo seco e a vizinha. Minha maleficência caminha toda enfeitada em seus ruminares e falácias que as vezes nem nota a benevolência que passa distraída e sem expectativas num simples "bom dia" que me esqueço de retribuir. E eu, centro de massa comum desses dois corpos celestes que em mim orbitam, ora boa, ora má, apenas antevejo a colisão que logo se dará: e então, meu amigo, serei estrela cadente - iluminando o céu do que é bom e do que é ruim, no espetáculo da humanidade maniqueísta que rondam esses dias.

Archangelus

Era eu Babel em meu plano mais profundo: humana demais, logo em mim a necessidade de aproximação de deus - narciso que me habita e lembra: - é tu a imagem e semelhança-perfeição. Ignoro meus erros e dedos em riste apontam as idiossincrasias do mundo, assim esqueço meus tantos defeitos: sou deus este que em sua trajetória arrependeu-se, amou, vingou-se, matou. E assim a vontade de aproximação do pai - elevo a mais bela torre, o caminho aos céus, eu-babel. Eis que me confunde o pai: atordoa-me a língua e criatura que antes oratória agora não mais compreende seus irmãos. A solidão perdura - meu lamento não mais acolhido por quem me rodeia - palavra que perde o sentido frente à qualquer emoção - fecho os olhos e oro: um pai também erra.

Laranja


Havia algo no pôr do sol que repousava sobre a cidade... minh'alma ficando pra trás no laranja que cobria o lugar onde meu coração havia ficado. Despedi-me de mim sem adeus e sem lágrimas, não era a primeira e nem a última vez, porém a mais triste. Este corpo que a tempo já se habituara a despedaçado ficar espalhado em casas e n'outras estórias agora perdia o próprio coração, como pode ver. Havia o deixado sem notar e assim, partindo sem pretensões de voltar, não pude recuperá-lo. Há talvez algo em mim que o faça de propósito: entrego-me demais. E notando este erro conscientemente não o corrijo. Lido com tudo que me desperta a emoção apenas com o silêncio de um par de olhos baixos e o grito mudo guardado no peito deste coração que me alardeava demais. Sendo assim talvez não o tenha apenas perdido ou esquecido inconscientemente, mas sim, quem sabe, talvez, o abandonado a própria sorte, no relento de algum quintal, ou desprotegido em qualquer par de mãos, para que uma menina, essa menina, possa enfim respirar. 

Eu sinto muito, mas eu sinto demais.

[travessão]:

Não sou de pouca conversa - falo muita bobagem - mas nunca fui de me abrir assim com os outros. Me parece insensato demais ocupar ouvidos alheios com as dificuldades que eu mesma não consigo enfrentar. Costumo escrever não como quem o faz pra fora - mas sim pra dentro. Rumino cada sílaba o tempo todo - volto, retorno, apago, não me entendo, repito. Me prende o antagonismo da vida - a sobremesa após o almoço - um bisneto no colo da avó - essas brincadeiras irônicas que a nós são impostas dia-a-dia. Acho tudo muito dolorido - e de tão triste me parece que a vida é bonita. Ou ela é bonita demais e por isso eu seja triste... Enfim, apenas não sei. Entende minha dificuldade? Eu não sou boa de prosa, mas eu não falo pouco. Ocupo esse vazio com intenções de felicidade e assim me esqueço a todo momento: a vida é difícil. E é uma só. E isso que me magoa... O oposto de viver é morrer, e apenas nesse ponto, onde tudo é dois, me parecem que as pessoas vivem meio mortas, um algo só.

Adeus

Então era o adeus. Quantas formas de adeus conhecera? Havia enterrado um cão certa vez na infância - porém não se lembrava do sentimento de peito escavado que ali agora presenciava. Quantos amigos havia deixado pra trás? A sutileza do tempo é dispersar o que amamos lentamente - quando se vê já é o fim. E de repente tomada assim - gesto profano de um coração duro que apenas dizia não amar mais. Crescera nessa mentira hollywoodiana de que o amor é suficiente -porém não o era. Desacreditara em deus ainda na adolescência - o coração bondoso não a permitira. Se entregou ao destino desde pequena e este esbofeteava-lhe a cara sem pena. Cresça, infeliz! Vê se aprende: adeus é o tchau mais triste que existe.

me afoguei

Surpreendi-me inicialmente - seu movimento silencioso ao lado de meu esqueleto desajeitado - na escola não nos ensinam nada sobre o amor e de repente me foi nítido que as equações não me ajudariam em nada no mundo ali fora. O contato de seu corpo no meu me afastou - por mais que o quisesse perto - eu uma pobre criança, que não sabia guardar segredos, não sabia pintar os lábios, sequer possuía bonitas calcinhas - criaturinha termoneutra e sem graça. Encurralou-me contra a parede - dali retirei algo da ciência: o que se seguiu com certeza diriam-me os professores ser apnéia. Prendi a respiração, e não compreendia como um corpo sem oxigênio poderia acelerar tanto um coração. Colou seus lábios no meu e prensou meu corpo contra o próprio um tanto sedento demais - e esta criança sem fôlego, sem jeito, náufraga num mar de sensações no qual em nada conseguiria se apoiar. O que se seguiu foi inspiração intensa - água que adentrou meus pulmões - fogo que queimou meu corpo - e então, a morte surge pouco tempo depois. Me afoguei naqueles braços e assim, desejei nunca mais reviver. Na escola não nos ensinam estas coisas.

escrevo

Escrevo em defesa do silêncio estuprado - proparoxítonas gritadas à esmo - contra a rima de meus lábios cerrados. Escrevo a próprio punho a revolta que queima minha pele e se transfere ao barulho grafitado no papel - aqui nada se apaga, nada se perde, nada se é. Conjugo meus verbos em tempo errado - blasfemo contra o correto. Toda essa gente que me grita regra - à merda - eu escrevo. Eu não falo. Eu não digo. Eu não grito. Minha pausa é ponto final, meu grito exclamado, minhas dúvidas, incertezas - interrogo-me em tantos braços - e findo-me em reticências. Eu escrevo porque não sei compor.

dúbio

Hesito frente as partes que brigam dentro de mim. Este útero que grita o filho não gerado - essa jovem que carrega pulsão de morte no seio. A mulher que se achega no colo do amado - esta puta que entrega-se a qualquer galanteio [pois não sou - não sei]. Corre-me essa menina que se diverte na montanha-russa e levanta os braços sem medo - e a criança temerosa que se esconde frente ao brinquedo [eu não vou - me estarreço]. Perco-me nos caminhos traçados - esta parte estúpida de mim que geme o cansaço do descaso - a insignificância do eu - e chora, grita, baba e a outra - que apenas ri de meu desembaraço e coroa-se rainha do acaso - mãe de todos meus desejos. Este lado que me é cego - e este lado que apenas não vejo.

tato

Dos cinco sentidos era tato – o toque. Seus dedos em meu cabelo lembravam-me desavisado: “está viva, vê? Vai sem pressa, pequena. Segue seu caminho”. E talvez não soubesse que iria – ou que indo já não mais lhe pertenceria. Porém, fui. Soltei os dedos que carreavam minhas inseguranças para partir. Ali me despertou o primeiro sentido: era dor – ainda arde minha pele. Lá fora eram outros muitos que me confundiam a textura: uns tantos ásperos, outros tantos avelãs e enfim, um pêssego em minhas mãos. Aqui reconheci meu lugar – achei-me em seus dedos e minha pele era febre matada frente ao seu toque. Continuo sem pressa - minha propriocepção tomou seu corpo e já não me é desavisado seu lugar: pertence junto a mim. Aprendeu a partir e ainda assim, escolheu ficar. A vida inteira me levou pela mão, me subiu pelos braços, acabou-me na boca e a cuspo, engulo, digiro. Alimento-me do que se consome em mim e vivo.

reboco

Era um muro de reboco, mal-arranjado e displicente que norteava o inicio da minha rua. De longe o via: seus rabiscos coloridos da criançada que ali brincava - um raio de sol, um jogo da velha, diversas flores e borboletas coloridas num jardim infantil de maravilhosos rabiscos tortos. E assim, de longe, sabia que estava em casa. Meu descanso começava nas borboletinhas que insinuavam seu bater de asas - porém fixas no cimento cinza e sonso de um muro de casebre desajeitado, e ainda assim, lar de todos. Até que então, certo dia, achei um pedaço de giz no chão - pontinha de nada - cor de rosa, já toda gasta. Não resisti: gravei meu nome e o teu no muro que me mostrava o fim de meu caminho. E agora amanhecemos e entardecemos entrelaçados num rabisco mal-escrito de um muro que me lembra sempre: todos os dias retorno para casa. E meu descanso é em seus braços.

éramos

As manhãs tinham gosto de jabuticaba no pé. Éramos todos meninos - até mesmo as três de saia - e o mundo era o quintal de vovó. Pés no chão que corriam apressados em direção ao melhor esconderijo secreto e mãos e dedos distraídos a se queimar em pequenas taturanas já avisadas da euforia de brincadeiras infantis. Éramos todos crianças - mesmo não o querendo - e clamando por uma responsabilidade que ainda [nem de longe] arriscava a despontar. Quando inventava de calçar os saltos de mamãe - dona de mim - atribuía-me as correrias e insatisfações da vida adulta sem sequer desconfiar que assim haveria mesmo de ser. A filhinha boneca no colo exigia ser levada logo à escola, os aluninhos-peixinhos que provavelmente já estavam a esperar a querida professora atrasada - ó céus! não há tempo, preciso correr. E saía, aos tropicos num sapato 37 em pé 26. Éramos todos felizes - lambuzados de fruta fresca e a insensatez infantil de esquecer que a vida, ela passa, e crescemos demais. Éramos todos lembranças e assim, confirmo que não há de se ter pressa, estaremos guardados para sempre - porém, não deixe para amanhã o que precisar dizer hoje, o dia de hoje só o será hoje. O amanhã é talvez...


vulcano

Foi-se magma que escorreu-me peito abaixo - erupção. Poluiu-me os lábios de enxofre tal qual se fez inferno em meu leito. O diabo me atenta com doces palavras e passeamos meia hora por entre a lava, ele diz: - Vê o que me fustigaram? Vê o que vivo? Tudo acaba em fogo, e em fogo se consumirá. Passio-onis, minha menina, não significa nada além de sofrimento. E este foi meu pecado - amei demais. Eu apiedei-me de pobre criatura - condenação eterna na casa de Hades, a má-fama na língua dos filhos de Eva [corruptos, mentirosos, ladrões]. Todos filhos de Deus, perdidos em desencontros, angústias e sofrimento - o medo de não pertencer - as expectativas irreais e no fim, apenas pó da terra que tudo renegou. O pão que não matou a fome, a água que não supriu a sede, a fé que não pacificou a alma. E finalmente acordo - vulcão - ar que falta à dois pulmões sedentos. Tudo um sonho.

casa

Você não sabe, mas estes caminhos que trilhei, estas mãos que segurei, fizeram de mim lar. E sou sala de estar - festa que convida - amigos no sofá - sorriso que lhe ameniza as feridas de outrem. Eu sou cozinha - mão que alimenta - palavra que sustenta, prato feito de paz. Sou quarto - descanso do corpo, meus beijos espalhados neste rosto que comigo se deita, que na chance de ir - fica, e dorme. Sobe as escadas devagar e não bate na porta, entra aqui, desfaz as malas e minha casa é sua: venha quando quiser, parta quando decidir. Desfaça meus colares de miçanga e bagunce minha ordem, pois eu, eu sou casa - sou fixa e fico - não parto. E essas partidas, já aprendi, sempre deixam algo, e acrescentam mais um cômodo nessa casa.


cama

Não me apaixonei pelo seus olhos entreabertos de manhã que fajutos me beijavam os lábios. Não me convenci com os braços que me entrelaçaram e arrastaram para o banho quente e apertado - contra um abraço espreito à espera. Ignorei a sede que me matava frente à tua boca molhada. E relutei, mordi o lábio, cerrei os olhos, cruzei as pernas, fiz cara de brava. - Eu não me apaixono, rapaz. - E deito aqui do teu lado, abro minha boca - de lábios duros - e digo com essa voz que treme à cada movimento seu o que eu não me canso de dizer a cada palpitação minha: Não vá pra casa ou pra longe de mim, eu não me apaixono. Eu não me entrego. Eu não amo ninguém. Mas fica aqui.

Espera

A falta que me faz são suas coisas que não estão espalhadas pela minha casa. Seus pelos que não ficaram no meu sabonete. Aquele livro que nunca me emprestou. Minhas pupilas ainda reagem frente ao seu calor, e aquele meu disco de Francisco trava onde seu sangue misturava-se ao meu - coração medroso - que pára, não bate, sangra e se esconde frente a mínima possibilidade de felicidade [ou esquecimento]. A realidade bate a minha porta e avisa - vê este aperto? peito murcha, esvazia-se, tudo acaba. E assim lhe deixa (re)começar. Essa angústia que me causa tudo o que ainda não vivi - a sede do último beijo e o medo do primeiro passo - misturadas a falta que sua ausência deixou. Há café em minha xícara, tristeza em meus olhos, vontade em meus lábios e um sol que nasce - infinito em sua majestade - me relembrando a sorrir pela vida que se curva frente à minhas inverdades e chances desperdiçadas de me refazer destes pedaços que me caem pelo caminho. Trago cicatrizes de uma vida curta que a tudo se entrega e agarro-me ao meu amor por tudo. Porque é apenas isso: eu amo. E por amar, só falo bobagens. E espero sua volta no sofá da sala.

Clave de fá

Errei o ponto. Nunca foi final. Era sempre reticências *suspiros*, vírgulas *continuações*, exclamações *gozo*.

Errei o acorde.
Na execução simultânea, preferi as escalas *a doce harmonia do crescente*

Ah! Queria cantar o mundo em dó menor, ter timbre, voz! Saberão me entender os apaixonados... Os de mundo azul-marinho.

O por-do-sol é um soneto, um beijo sinfonia.


campo de batalha

Minha guerra é perdida. Sequer pertenço a esse campo lamacento de batalha no qual sujo meus pés descalços. E aqui estou: alvo fácil, peito descoberto, um círculo no meio da testa que grita - mate-me!, e agora regozija a dor prévia da perda de algo que na verdade nunca possuiu. Meu leito é puro sangue, vermelhas mãos e colo nos quais meu inimigo se lambuza. E eu sigo caminhando nesse campo minado, ora me paro – olho minha volta, suspiro, choro. Ora fecho os olhos e peço aos céus proteção divina – me ajude meu bom deus. Segure a mão de sua menina. 

Abro os braços

E corro de olhos fechados ao seu encalço.

janta

Ontem fui jantar fora, um desses restaurantes que colocam mesas à calçada. Escolhi o prato e sentei-me a esperar... Porta de universidade, corpos, carros, cadernos num vai-e-vem que me entorpeceu os sentidos. Na falta do que levar a boca - esqueci-me do refrigerante - meus olhos se embriagaram naquele começo de noite movimentado. Essas crianças correndo apressadas às suas aulas, eu ali, faminta de qualquer coisa, olhos atentos aos seus movimentos, no que então me surge os dois: os nomeei Cassandra e Apolo, não pelo apelo mitológico, imagine. Não sou dada a essas cafonices de demonstrar-me mais inteligente do que realmente sou, mas apenas para dar-lhes ares de maior apresentação artística do que realmente conseguiria demonstrar em outras nomeações. Eram os dois, Cassandra e Apolo, menino e menina, homem e mulher, Adão e Eva que caminhavam juntos, desconfortavelmente abraçados a beijar-se um ao outro. Ombros, bochechas, bocas, cabelos, mãos. Infindos beijos que alardearam a atenção dessa pobre escritora que aqui vos fala. E os segui até onde pude, com o coração morno pelo carinho que ali transbordava, esquecendo-me por um momento do narcisismo infantil que nos move rumo à essa (mal)dita necessária paixão eloquente. E naquele casal, agora apenas João e Maria, cercado de tantos que iam e viam sem lhes dar conta, perdidos em seus beijos e abraços e carinhos, vi o céu que se prega no percurso do amor, me dando conta de que a muito vivia apenas o inferno - e num susto: - Sua refeição, senhora. Cassandra e Apolo se foram, os perdi de vista. Lamentei a dureza do garçom, mas foi apenas mais uma dessas indelicadezas da vida. Comi, sorri e me retirei. Naquela noite sonhei que amava e amanheci feliz.

E eu lhe digo: adeus

Não me lembro o dia que você morreu. Sei que estava só, como me sinto desde então, quando soube que você não estava mais. Não me lembro se fui lágrimas, risos ou lamento. Mas me lembro da força desumana que meus músculos demonstraram ao afrontar um coração que não acreditava conseguir colocar-se em pé. Em especial trago um detalhe que ficou: era noite, como são os meus dias agora. E desde então, nunca fui tão forte...

Well, you cured my January blues

havia tua mão
-e a boca minha-
passeava apressado
em minha língua
(havia meu suspiro
e o seu arquejo)
essa febre que me toma
essa cama em que me deitas
desses olhos que não dizem
onde terminam estes dedos

manifesto

Aonde estão as mulheres de minha geração? Aonde estão as Janis com sua sinceridade construtiva, sua personalidade singular? As Clarices com seus fossos e seus segredos? Aonde estão as mulheres que precisam ser desvendadas, descobertas, desnudadas - e isso tudo a muito custo, muita luta! Vejo por todos os lados pequenas cópias múltiplas, milhares, de cabeças ocas e vestidos curtos. Aonde estão as Dilmas de nossa geração? As Elizabeths, as grandes rainhas donas de grandes exércitos, as grandes comandantes. Meu Deus! Aonde estão? Fridas, Evas, Tarsilas, Leilas, Anitas, Helenas, apareçam por piedade Divina! Pois o que me rodeia é cansativo. É plural demais para um sexo tão singular.

escalada

Conheci o amor ao longo das trombadas com os muros altos, que me ensinaram que nunca conseguiria passar por entre o forte concreto. Após quebrar a cara diversas vezes aprendi a escalar. Errei demais ao apoiar os pés em locais inapropriados. Às vezes, pisando forte demais em locais muito frágeis, agarrando em galhos já secos, ou até mesmo, perdendo as forças e caindo ao chão novamente. Ralei os joelhos, sangrei sozinha. Nunca desisti. Às vezes achei que não encontraria forças para prosseguir, ou até mesmo que a vontade já não existia mais... Sempre enganada. O que me motiva são os boatos, a rima que ouço dos ventos, o canto dos pássaros que apenas confirmam o que nasci sabendo: a vista é linda. E eu continuarei subindo.


sobre saudade

      A Saudade é o pior tormento, já dizia Chico Buarque. Habituei-me à ela como quem todos os dias abre os olhos ao despertar, uma necessidade precisa. Como faria eu se passasse o dia com os olhos tapados? É preciso abri-los. Saibamos que nós abrimos os olhos ao despertar e não erroneamente, como alguns pensam, despertamos porque abrimos os olhos [note a sutil diferença, porém fundamental]. E assim é a saudade. Num de repente ela surge furtiva, apressada e assim dolorida. E então neste mesmo relance que vem, você é despertado e nota que ela sempre esteve ali, sempre estará. A Saudade lateja no peito como um coração adolescente disparado ao ver-se numa situação tão íntima com a pequena namorada com a qual dança. A mão gentilmente desliza para a cintura da moça, o vestido leve de seda permite asas à imaginação e o coração fraco cede, bate. Assim é a saudade. A saudade é cada lambida de Sol ardente que seu corpo toma pela manhã ao pegar o caminho para o trabalho, é a mesa posta para somente um no café-da-manhã. E sendo assim não me surpreenderia se estivesse emocionado com aquela música, aquela que dizia algo sobre os dois, que antes um, agora somente metade. A Saudade é a velhice só, é perceber em cada brisa fria da manhã a lágrima quente da lembrança guardada, saudosa e bem-vinda. E já que foi me dado o direito, usufruirei todos os dias desse nobre sentimento, sonharei todas as noites com a presença que perdi, me emocionarei com a chuva e dormirei embalada em suas canções. Pois faz parte de mim, e mais do que isso, é o que sou, como os olhos que se abrem ao despertar pela manhã.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor, adeus

entrei em casa e havia uma carta embaixo da porta que dizia assim:

Meu Amor, te perdi. Não por relutância ou comodismo, mas por não ser permitido a mim mais estar aqui. Ficará o futuro que não chega, os planos que não se concretizam, os filhos que não são gerados. Me perdi. Logo que parti notei o erro que cometia mas não pude voltar atrás. Meu Amor, enxugue as lágrimas. Dias novos virão, amores não tardarão, limpe este rosto, que de tão alvo confundo com o céu, mas ao olhar pros lados vejo que não está aqui. Te perdi. Te imploro perdão. Siga com a sua vida, seja feliz, mas não te esqueças de mim. Te imploro que me guardes na lembrança, de um amor fadado ao vento, ao silêncio de dois corpos, ao sorriso de uma amizade, à um -eu te amo nunca pronunciado, aos sussurros e gemidos que nunca nos deleitamos. Me perdi. Guarde uma fotografia, guarde uma memória, guarde um rabisco qualquer, mas não te esqueças de mim. Pois enquanto me perdia em meus próprios braços e soluços em meu próprio ofegar que notei o quanto sempre te quis.

Meu Amor, te perdi. E não pude achar-te em mim.

sobre amores guardados

Não tive a chance do olhar de adeus, de uma despedida correta, declarada em paz ou em guerra, pelos seus olhos pequenos. Olhos pequenos que traduziam tão bem a vontade de minhas mãos em teu corpo, onde brincava desajeitada e ousadamente pelo seu jeans. E o não despedir-se meu Deus, me sufoca ainda nas noites de solidão, onde minhas mãos pousam em meu peito e meu coração chora o bater fraco e lento ausente do seu. Me acovardei, chorei seus olhos cerrados e jurei não esquecer. E eis minha maior contradição: por medo de me esquecer me lembro todos os dias, todos os dias.

tempo

Ela estava ali - na imagem refletida de um rosto cansado dos longos dias curtos que se embaralhavam em semanas [e meses] confusos e indistintos. Não se lembrava o que comera no café - não se lembrava que roupa usara no dia anterior - apenas não se lembrava de muitas coisas e assim como num relance, esquecia-se de ser o que era - essa anulação da vida adulta - dos carnês de pagamento, dos extratos bancários, do trânsito à caminho do trabalho. Perdia-se, pobre criatura, em nada. Pois era nada o tudo que tinha em vida, e nessa constatação então, chorou. E viu-se, olhos avermelhados, boca aberta, cabelo desgrenhado, mulher frente à um espelho de mágoas - de vida que se esquece de viver - de caminhos que esquecemos de trilhar. Esfregou os olhos, lavou o rosto, se olhou no espelho com a incredulidade de uma criança frente à perspectiva de uma nova experiência: precisava se encontrar. Na saída de casa, deixou as chaves do carro em cima da mesa. Já então na rua abriu as asas - e o vento fez voar.

banquete

Tenho muito a te ensinar, Verinha. Mas não vou te privar da libertação que é o deguste da vida. Você provará cada sabor e entenderá qual melhor convém. Inventará teus próprios temperos e realizará banquetes que te fartarão. Uma coisa te digo: há apenas um no mundo que sempre lhe bastará, que é e será você própria. Quanto aos outros dose bem. Saiba bebê-los devagarinho, sem embriagar-se e ver-se inconsciente de suas ações. E não espere de outros sabores que seu coração produz. Às vezes, sei que soa engraçado, o coração de outras pessoas pode ser mais salgado, ou doce demais. Talvez até insosso. O que não os torna melhores ou piores que você. Gosto é isso, Verinha. Você verá e entenderá.

Ana

Ana amava. Descia escadarias correndo sem apoiar-se no corrimão - era dessas pessoas que se arriscam. E por isso, Ana amava. Entregava-se a cada um que a quisesse. Beijavam-lhe a boca, lambiam-na os seios, perdiam-se em suas pernas e ao fim - honesta e molhada declarava sem sonetos: "Te amo." e sorria desencabulada. Ana amava, Carolina não. Carolina preferia elevadores - a praticidade plástica das facilidades inúteis do dia-a-dia - comprava flores de plástico para enfeitar seus dias. Não se entregava e por isso não pertencia - sequer gostava de chocolates, não os comia. E sendo assim era Ana Carolina, porque o bom de não saber amar, é amar sem se dar conta, porque mais ninguém o poderia, era ela então - Ana Carolina.

negro

Encaro o espelho com olhos apáticos que me brilham de volta e sorriem esperançosos para uma garota que digere inutilmente as palavras [não ditas] do dia-a-dia. E me encaro, me julgo, me xingo - Não sabe o que faz. -Não sabe o que quer - estúpida. Sorrio de volta à garota que não retirou a maquiagem da noite anterior. Conheço os riscos da falta de protetor solar, mas nada me parece mais cruel do que o tempo. O que mata não é o exagero - é a falta. O que sufoca não é a falta de ar - é não ter pelo que respirar. Meu corpo magro se retrai e eu me retiro - já é manhã, há um sol amarelo, um céu azul, pássaros coloridos ainda cantam por aqui [e confesso que isso me transborda a felicidade] e em meio a tantas cores o que me lembro é de uma criança que brinca com suas massinhas de modelar, e em busca da cor mais bonita do universo - a junção de todas elas - descobre que resultam apenas em um preto insosso e feio. E assim, choro como um menino perdido da mãe que sabe o caminho de volta mas não atreve a percorrê-lo sozinho.

estrada

O esforço para soar honesto lhe entortava a boca e desfigurava aquele rosto que achava bonito enquanto sereno. Não que ele fosse, e não o era, mas agradava-me as peças em estado individual: o nariz pequeno, as orelhas corretas, as sobrancelhas arqueadas - o havia conhecido ainda menino, ridículo, magricela e cabeçudo, andava pelas ruas sempre com algo nas mãos e isso havia me marcado pois era a única lembrança que traria dele da infância: uma fruta, um pote, um bandolim, um bicho. Sempre aquelas mãos ocupadas, que agora, em minha frente, pareciam desajeitadas e gesticulosas demais sem meu corpo a dar-lhe trabalho e ocupação. Seus olhos não prendiam-se nos meus: "não consegue olhar-me" - imaginava divertida enquanto o pobre diabo sofria em suas palavras incompletas - a sensação de domínio me agradou. Eu, mocinha mal feita, de pernas tortas e um ar de mais sobriedade do que realmente padeço, ali, parada, escutando uma confissão de amor entrecortada por tantos sinais que me afoitavam todos os sentidos, me desfazendo a concentração. Mas o que me atiçava mesmo eram as mãos vazias, e por isso, tão instintivamente, talvez, as tenha pego e entrelaçado minha própria cintura e pronto: agora estavam corretas, faziam sentido. Cravei-lhe os olhos com maldade dentro dos seus para que não pudesse fugir à minha vontade de fincar a bandeira da vitória em seu terreno não trilhado pelo amor, matas virgens que adentrei língua adentro em sua boca. E então foi só silêncio. E dois corações que palpitaram um beijo molhado, sem sabor, marcado pela ferocidade jovem de uma pessoa que sempre sabe o que quer, e por isso se perde em seus caminhos - e um menino que apenas estava ali, e por isso, era. E seria. 

Labirinto

Tenho o corpo leve, e assim
facilmente
me levanta, me prensa e me amarrota.
Tenho as pernas finas
para que possa
gentilmente

se enroscar entre as coxas minhas
meus tornozelos, meus joelhos, minha virilha
e se esquecer por onde entrou
para então
nunca mais

achar a saída.

cotidiano

- Olá.
- Não
- Oi?
- Já disse. Não. Agora é só um olá mas depois serão alguns chopes em um barzinho com showzinho ao vivo. Risadas sobre situações engraçadas, gostos em comum. Eu me derretendo pelo Chico e você falando do PT. Não, não quero. Você imagina o que vem depois do PT? Imagina?
- Mas...
- Depois do PT eu falando que acho melhor encerrar a conversa. Você vai exigir o meu número de telefone e eu vou fazer charme dizendo que você não vai me ligar. Assim você me passa o seu. E então eu vou te ligar pra gente tomar um café, e é claro que você vai aceitar! Cachorro!
- Mas eu...
- Nada disso! Você vai querer me beijar, vai arranjar outros encontros, vai conseguir! Eu vou me apaixonar... Daí colega, já estará tudo acabado mesmo... Porque vem os filhos... 1, 2, 3! E com ele as crises. Parcelas em 12x sem juros. Decorar apartamento, arrumar cachorro. Não quero isso pra mim não.
- Eu não sei o que...
- Não, não sabe mesmo. Afinal as crianças estarão na barra da MINHA saia. Eu terei que virar mil pra ser mãe, mulher, dona-de-casa, trabalhadora. não Senhor! Deus me livre! Já te vejo chegando três horas depois do seu expediente, com cheiro doce de mulher e eu louca caçando marca de batom no seu colarinho.
- Minha senhora...
- Não! Esse seu OLÁ não é o primeiro e nem será o último deles. Te dispenso. Te amo por tudo que poderíamos ter vivido, mas não deu certo, nunca daria. Então em troca do seu olá, o meu tchau.
- Mas e sobre o cartão? Você não vai querer conversar? Crédito ilimitado senhora!
- TCHAU!
Moço, ela é tão bonita
Que só pode ser feliz.

senhora

Vamos nos encontrando em meio à tantas unhas, fios de cabelo, dentes, lágrimas e suor. Pego-me pensando sobre o que poderia acontecer e gosto de sofrer sozinha, me dá ares de Senhora, mulher que muito ama. Faz-me acreditar que a essência de tudo, então, estará nele: o Sofrimento. A alegria não seria tão extasiante sem o amargo da Angústia, da Dor e da Espera. Comportam-se como membros do nosso próprio corpo, de modo como um braço, ou então um dedo importante, que me permite esta escrita indecente. E sempre haverá esse gosto agridoce do sentimento de espreita. Sempre haverá esse prazer cruel de encontrar-se. Na dor.



desordem

Eu estava em paz quando você chegou. Jogada no sofá, brincava com meus dedos num batuque insistente que poderia ter irritado quem me fizesse companhia - mas não havia ninguém. E num de repente: mão pesada que bateu na porta e assustou meu coração. Não sabia quem era, não deixei entrar. Insistente foi você. Eu estava só quando você chegou, sabe? E essa coisa de solidão é saber-se ignorando sua própria imagem no espelho, pois ali não há nada e nunca há ninguém. Estava assim. Louça suja na pia, cama desarrumada, lixo acumulado, poeira no chão. E foi nessa casa bagunçada que você se adentrou, numa segunda vez. 



As cortinas estão fechadas e não deixam a luz do sol entrar. A boca entreaberta com a barba amarelada pela nicotina me olha como quem pergunta: - há alguma coisa aí?. E aponta pra uma menina, que antes sempre sozinha, agora ali.  - Tem, mas acabou. Ou pelo menos era o que ela acreditava. Até olhar pra esse lugar ocupado na sala e esquecer que há paz na solidão, paz? questiona. Aqui dentro está escuro, mas lá fora faz sol, percebi. Talvez seja hora mesmo de me desfazer dessas velhas cortinas e faxinar o meu lar.

trincheira






seus olhos fizeram da minha brisa tempestade
do meu medo,
trincheira

meio a tormenta que teus lábios
- meu fio de instabilidade -
cavou,
protegendo a mim mesmo

e então caiu
a chuva,
a água,
o céu - teus olhos tão mansos

encheu-se minha vala
permaneci ali e
naufraguei
na correnteza das coisas que vão
e não voltam mais

A fé me parece como aquela moça bonita demais - que se sabe madura no pé - e faz pouco caso do bombom recheado que a mão do moço estende de olhos baixos. E meus olhos - que também são os olhos desse moço - tem medo de encará-la e ver que essa bobagem toda que a gente inventa de esperança é apenas uma parte de nós que já se sabe consciente do susto que vai tomar com aquele filme de terror, e ainda assim, grita alto o medo já conhecido. Fico de olhos baixos por aqui, com essa chama fria de esperança que a fé sempre alimenta, com medo de subir os olhos e ver que todo o mal que eu acredito existir realmente estar ali. Que Deus me dê forças.

vó Maria

Era pequena e minha mãe lavava roupa em água suja pra dar de comer para mim e aquele tanto de irmão. Eu era a maiorzinha e logo tomava conta de todo mundo porque não dava tempo pra mamãe. Ela não era uma mulher carinhosa, a gente não sentia falta porque não sabia direito o que era carinho. Mas lembro que a noite, depois de lavar as poucas louças do jantar, sentava com a gente no colchão da sala e adormecia com a mão no meu cabelo. As vezes falava uma ou outra história de quando ela era pequena, e contava que ao invés de lavar roupa no tanque, tinha que descer lá pra baixo do rio, andar um tempão, e que machucava os pés, e enchia de bicho. Ela era grata por tudo o que tinha, e nunca reclamava. Um dia chegou com um sorriso dentro da sala, eu tava com a Joaquina no colo, penteando seu cabelo, e anunciou que eu ia poder estudar. Fiquei feliz e corri pra arranjar sapato. Passou um tempo depois e a gente descobriu que tinha que levar material... Era caderno, lápis, mochila, um punhado de trem que eles diziam ser "fundamentais" quando lá em casa fundamental era comida. Daí passei a catar bosta. Catava bosta o dia inteiro e vendia pros outros. No outro dia de manhã corria na padaria e trocava as moedinhas por aqueles sacos de pão, que acabaram por me servir de caderno. Mas não deu pra estudar muito tempo. Logo larguei a escola, e aprendi a lavar roupa com a sua avó. E como a sua avó alimentei todos os meus filhos, e um deles me deu você. Porque é difícil a vida, minha fia. Mas mais difícil é não ter com quem dividí-la... O mundo é bom, e eu fico feliz de você estar nele.

6h

São seis horas da tarde quando pego o ônibus. Penso comigo mesmo que chegarei ao meu destino ainda com a luz do dia e que não me acostumo com esse horário estranho. A paisagem entediante e o balanço do carro dão um leve torpor muscular e me relaxo no banco. Nesses momentos mais inusitados - você mesmo, uma janela, um desconhecido ao lado, um céu sem fim - parece que todos os temas do mundo passam na cabeça e tudo o que tento é não me preocupar. Tarefa difícil. O infinito do universo, a fragilidade da vida, - será que tranquei a porta de casa?, amores perdidos e os futuros também inundam meus pensamentos. - Preciso maneirar no vinho. - Quanto tempo não vejo a Cláudia... - O que é o tempo?. E me perco. De repente uma olhada mais romântica ao céu - tão azul - e a vida que se nota tão pequenina e cândida nesse universo. Pois ora só, o que sou eu? Minha fragilidade me assusta. Pois não passo de nada, ninguém, ponto efêmero na imensidão de algo tão grandioso que é o universo e eu - pobrezinha - inútil criatura supérflua que de ônibus segue caminho à sua casa. E tudo se move. O telefone toca, é minha mãe. Pergunta a que horas chego em casa e recomenda que me apegue mais a Deus, pra enfrentar essa vida. Digo que sim, aceito o conselho. Fecho os olhos e durmo.