éramos

As manhãs tinham gosto de jabuticaba no pé. Éramos todos meninos - até mesmo as três de saia - e o mundo era o quintal de vovó. Pés no chão que corriam apressados em direção ao melhor esconderijo secreto e mãos e dedos distraídos a se queimar em pequenas taturanas já avisadas da euforia de brincadeiras infantis. Éramos todos crianças - mesmo não o querendo - e clamando por uma responsabilidade que ainda [nem de longe] arriscava a despontar. Quando inventava de calçar os saltos de mamãe - dona de mim - atribuía-me as correrias e insatisfações da vida adulta sem sequer desconfiar que assim haveria mesmo de ser. A filhinha boneca no colo exigia ser levada logo à escola, os aluninhos-peixinhos que provavelmente já estavam a esperar a querida professora atrasada - ó céus! não há tempo, preciso correr. E saía, aos tropicos num sapato 37 em pé 26. Éramos todos felizes - lambuzados de fruta fresca e a insensatez infantil de esquecer que a vida, ela passa, e crescemos demais. Éramos todos lembranças e assim, confirmo que não há de se ter pressa, estaremos guardados para sempre - porém, não deixe para amanhã o que precisar dizer hoje, o dia de hoje só o será hoje. O amanhã é talvez...