éramos

As manhãs tinham gosto de jabuticaba no pé. Éramos todos meninos - até mesmo as três de saia - e o mundo era o quintal de vovó. Pés no chão que corriam apressados em direção ao melhor esconderijo secreto e mãos e dedos distraídos a se queimar em pequenas taturanas já avisadas da euforia de brincadeiras infantis. Éramos todos crianças - mesmo não o querendo - e clamando por uma responsabilidade que ainda [nem de longe] arriscava a despontar. Quando inventava de calçar os saltos de mamãe - dona de mim - atribuía-me as correrias e insatisfações da vida adulta sem sequer desconfiar que assim haveria mesmo de ser. A filhinha boneca no colo exigia ser levada logo à escola, os aluninhos-peixinhos que provavelmente já estavam a esperar a querida professora atrasada - ó céus! não há tempo, preciso correr. E saía, aos tropicos num sapato 37 em pé 26. Éramos todos felizes - lambuzados de fruta fresca e a insensatez infantil de esquecer que a vida, ela passa, e crescemos demais. Éramos todos lembranças e assim, confirmo que não há de se ter pressa, estaremos guardados para sempre - porém, não deixe para amanhã o que precisar dizer hoje, o dia de hoje só o será hoje. O amanhã é talvez...


vulcano

Foi-se magma que escorreu-me peito abaixo - erupção. Poluiu-me os lábios de enxofre tal qual se fez inferno em meu leito. O diabo me atenta com doces palavras e passeamos meia hora por entre a lava, ele diz: - Vê o que me fustigaram? Vê o que vivo? Tudo acaba em fogo, e em fogo se consumirá. Passio-onis, minha menina, não significa nada além de sofrimento. E este foi meu pecado - amei demais. Eu apiedei-me de pobre criatura - condenação eterna na casa de Hades, a má-fama na língua dos filhos de Eva [corruptos, mentirosos, ladrões]. Todos filhos de Deus, perdidos em desencontros, angústias e sofrimento - o medo de não pertencer - as expectativas irreais e no fim, apenas pó da terra que tudo renegou. O pão que não matou a fome, a água que não supriu a sede, a fé que não pacificou a alma. E finalmente acordo - vulcão - ar que falta à dois pulmões sedentos. Tudo um sonho.

casa

Você não sabe, mas estes caminhos que trilhei, estas mãos que segurei, fizeram de mim lar. E sou sala de estar - festa que convida - amigos no sofá - sorriso que lhe ameniza as feridas de outrem. Eu sou cozinha - mão que alimenta - palavra que sustenta, prato feito de paz. Sou quarto - descanso do corpo, meus beijos espalhados neste rosto que comigo se deita, que na chance de ir - fica, e dorme. Sobe as escadas devagar e não bate na porta, entra aqui, desfaz as malas e minha casa é sua: venha quando quiser, parta quando decidir. Desfaça meus colares de miçanga e bagunce minha ordem, pois eu, eu sou casa - sou fixa e fico - não parto. E essas partidas, já aprendi, sempre deixam algo, e acrescentam mais um cômodo nessa casa.


cama

Não me apaixonei pelo seus olhos entreabertos de manhã que fajutos me beijavam os lábios. Não me convenci com os braços que me entrelaçaram e arrastaram para o banho quente e apertado - contra um abraço espreito à espera. Ignorei a sede que me matava frente à tua boca molhada. E relutei, mordi o lábio, cerrei os olhos, cruzei as pernas, fiz cara de brava. - Eu não me apaixono, rapaz. - E deito aqui do teu lado, abro minha boca - de lábios duros - e digo com essa voz que treme à cada movimento seu o que eu não me canso de dizer a cada palpitação minha: Não vá pra casa ou pra longe de mim, eu não me apaixono. Eu não me entrego. Eu não amo ninguém. Mas fica aqui.

Espera

A falta que me faz são suas coisas que não estão espalhadas pela minha casa. Seus pelos que não ficaram no meu sabonete. Aquele livro que nunca me emprestou. Minhas pupilas ainda reagem frente ao seu calor, e aquele meu disco de Francisco trava onde seu sangue misturava-se ao meu - coração medroso - que pára, não bate, sangra e se esconde frente a mínima possibilidade de felicidade [ou esquecimento]. A realidade bate a minha porta e avisa - vê este aperto? peito murcha, esvazia-se, tudo acaba. E assim lhe deixa (re)começar. Essa angústia que me causa tudo o que ainda não vivi - a sede do último beijo e o medo do primeiro passo - misturadas a falta que sua ausência deixou. Há café em minha xícara, tristeza em meus olhos, vontade em meus lábios e um sol que nasce - infinito em sua majestade - me relembrando a sorrir pela vida que se curva frente à minhas inverdades e chances desperdiçadas de me refazer destes pedaços que me caem pelo caminho. Trago cicatrizes de uma vida curta que a tudo se entrega e agarro-me ao meu amor por tudo. Porque é apenas isso: eu amo. E por amar, só falo bobagens. E espero sua volta no sofá da sala.