vó Maria

Era pequena e minha mãe lavava roupa em água suja pra dar de comer para mim e aquele tanto de irmão. Eu era a maiorzinha e logo tomava conta de todo mundo porque não dava tempo pra mamãe. Ela não era uma mulher carinhosa, a gente não sentia falta porque não sabia direito o que era carinho. Mas lembro que a noite, depois de lavar as poucas louças do jantar, sentava com a gente no colchão da sala e adormecia com a mão no meu cabelo. As vezes falava uma ou outra história de quando ela era pequena, e contava que ao invés de lavar roupa no tanque, tinha que descer lá pra baixo do rio, andar um tempão, e que machucava os pés, e enchia de bicho. Ela era grata por tudo o que tinha, e nunca reclamava. Um dia chegou com um sorriso dentro da sala, eu tava com a Joaquina no colo, penteando seu cabelo, e anunciou que eu ia poder estudar. Fiquei feliz e corri pra arranjar sapato. Passou um tempo depois e a gente descobriu que tinha que levar material... Era caderno, lápis, mochila, um punhado de trem que eles diziam ser "fundamentais" quando lá em casa fundamental era comida. Daí passei a catar bosta. Catava bosta o dia inteiro e vendia pros outros. No outro dia de manhã corria na padaria e trocava as moedinhas por aqueles sacos de pão, que acabaram por me servir de caderno. Mas não deu pra estudar muito tempo. Logo larguei a escola, e aprendi a lavar roupa com a sua avó. E como a sua avó alimentei todos os meus filhos, e um deles me deu você. Porque é difícil a vida, minha fia. Mas mais difícil é não ter com quem dividí-la... O mundo é bom, e eu fico feliz de você estar nele.