trincheira






seus olhos fizeram da minha brisa tempestade
do meu medo,
trincheira

meio a tormenta que teus lábios
- meu fio de instabilidade -
cavou,
protegendo a mim mesmo

e então caiu
a chuva,
a água,
o céu - teus olhos tão mansos

encheu-se minha vala
permaneci ali e
naufraguei
na correnteza das coisas que vão
e não voltam mais

A fé me parece como aquela moça bonita demais - que se sabe madura no pé - e faz pouco caso do bombom recheado que a mão do moço estende de olhos baixos. E meus olhos - que também são os olhos desse moço - tem medo de encará-la e ver que essa bobagem toda que a gente inventa de esperança é apenas uma parte de nós que já se sabe consciente do susto que vai tomar com aquele filme de terror, e ainda assim, grita alto o medo já conhecido. Fico de olhos baixos por aqui, com essa chama fria de esperança que a fé sempre alimenta, com medo de subir os olhos e ver que todo o mal que eu acredito existir realmente estar ali. Que Deus me dê forças.

vó Maria

Era pequena e minha mãe lavava roupa em água suja pra dar de comer para mim e aquele tanto de irmão. Eu era a maiorzinha e logo tomava conta de todo mundo porque não dava tempo pra mamãe. Ela não era uma mulher carinhosa, a gente não sentia falta porque não sabia direito o que era carinho. Mas lembro que a noite, depois de lavar as poucas louças do jantar, sentava com a gente no colchão da sala e adormecia com a mão no meu cabelo. As vezes falava uma ou outra história de quando ela era pequena, e contava que ao invés de lavar roupa no tanque, tinha que descer lá pra baixo do rio, andar um tempão, e que machucava os pés, e enchia de bicho. Ela era grata por tudo o que tinha, e nunca reclamava. Um dia chegou com um sorriso dentro da sala, eu tava com a Joaquina no colo, penteando seu cabelo, e anunciou que eu ia poder estudar. Fiquei feliz e corri pra arranjar sapato. Passou um tempo depois e a gente descobriu que tinha que levar material... Era caderno, lápis, mochila, um punhado de trem que eles diziam ser "fundamentais" quando lá em casa fundamental era comida. Daí passei a catar bosta. Catava bosta o dia inteiro e vendia pros outros. No outro dia de manhã corria na padaria e trocava as moedinhas por aqueles sacos de pão, que acabaram por me servir de caderno. Mas não deu pra estudar muito tempo. Logo larguei a escola, e aprendi a lavar roupa com a sua avó. E como a sua avó alimentei todos os meus filhos, e um deles me deu você. Porque é difícil a vida, minha fia. Mas mais difícil é não ter com quem dividí-la... O mundo é bom, e eu fico feliz de você estar nele.

6h

São seis horas da tarde quando pego o ônibus. Penso comigo mesmo que chegarei ao meu destino ainda com a luz do dia e que não me acostumo com esse horário estranho. A paisagem entediante e o balanço do carro dão um leve torpor muscular e me relaxo no banco. Nesses momentos mais inusitados - você mesmo, uma janela, um desconhecido ao lado, um céu sem fim - parece que todos os temas do mundo passam na cabeça e tudo o que tento é não me preocupar. Tarefa difícil. O infinito do universo, a fragilidade da vida, - será que tranquei a porta de casa?, amores perdidos e os futuros também inundam meus pensamentos. - Preciso maneirar no vinho. - Quanto tempo não vejo a Cláudia... - O que é o tempo?. E me perco. De repente uma olhada mais romântica ao céu - tão azul - e a vida que se nota tão pequenina e cândida nesse universo. Pois ora só, o que sou eu? Minha fragilidade me assusta. Pois não passo de nada, ninguém, ponto efêmero na imensidão de algo tão grandioso que é o universo e eu - pobrezinha - inútil criatura supérflua que de ônibus segue caminho à sua casa. E tudo se move. O telefone toca, é minha mãe. Pergunta a que horas chego em casa e recomenda que me apegue mais a Deus, pra enfrentar essa vida. Digo que sim, aceito o conselho. Fecho os olhos e durmo.