Desculpe meus modos desastrados. Descobri que posso incumbir a culpa a algo inerente à vida: o tempo. É isso. Tenho pouco tempo de existência nesse mundo cristão. Então, moço, desculpe meus modos desastrados. Minha juventude cisma em passar depressa, e depressa com ela movem-se minhas mãos, que seguram meus dias apertadamente entre os dedos, para que eles não escapem numa curta noite qualquer, enquanto derrubo tudo à minha volta. Desculpe meu sexo agitado. Talvez ainda não tenha aprendido direito, talvez ainda não tenha desaprendido, deixado maquinado, programado, então, seu moço, desculpe meu sexo irritado. Desculpe meus olhos desinteressados. Há um pássaro que voa longe no céu, tão alto, mas tão alto que não é possível imaginar. Ele voa enquanto outros, não como eu, caminham apressados para seus trabalhos, com seus olhos focados, chatos, então, moço, desculpe meus olhos desinteressados. Desculpe meu coração acelerado, que diz sempre - vai!, e me impede de ficar. Ficar ao seu lado. Desculpe, moço, agarrei-me à vida como você, que tanto se agarra ao passado.
Sério que ainda existe gente condenada a acreditar que estamos destinados à almas gêmeas? Contos de fada são entediantes até quando em desenhos. Não somos assim, predestinados, caminhos traçados, rotas definidas. Não podemos ser. Qual é a graça? Eu quero é poder cruzar com um desconhecido na rua e ter a pretensão de que ele me faria cócegas até não aguentar mais, mas que não mexeria na minha gaveta de escrituras. Quero poder trocar olhares, inventar amores, martirizar histórias não vividas, amar desconhecidos, outros e tantos que nunca vi, nunca saberei. Quero transar sem compromisso, me doar sem expectativas, acreditar em mil amores. Não posso e não vou trilhar uma vida à espreita, à espera da vontade arrogante do destino de achar que ele, este pobre coitado, seria capaz de me completar. Completar? Metade da laranja, mesmo? Eu quero é acordar em cada manhã poder olhar no espelho e saber: o amor da minha vida tá ali, refletido. E seguir o meu caminho...
Queria lhe contar a estória de uma menina que nasceu neste mesmo mundo que você, cresceu, amou, viveu, teve seu coração partido e sofreu, como tantas vezes você também o teve. E corações partidos, todos sabemos, não são providos apenas pelos dissabores que paixões de acampamentos de verão nos despertam, mas também pelas frustrações das expectativas reais e irreais, dos dias de chuva em que não se há um bom edredom pra socar-se embaixo, das manhãs corridas que temos que pular o café - E como dói! E esta menina viu-se perdida tantas vezes, pra reencontrar-se outras tantas e saber que logo no próximo ponto em que descesse seu coração seguiria à esquerda e ela rumaria à direita, porque é sempre complicado chegar a um acordo, mesmo quando com nós mesmos. Ela cresceu, amou, sofreu, como tantas vezes você também, meu amor. E o que eu quero te mostrar com tudo isso é que, não importa o tipo de grafia, a quantidade de parágrafos, não importa se papiro ou se papel, se conto ou se romance, nada disso importa. Há histórias em cada par de olhos apressados que você cruza tantas e tantas vezes, também apressadamente. E são excelentes histórias, tenho certeza. Assim sendo, caro leitor, te questiono: você leria comigo um bom livro? Estampado na pele de cada pessoa anônima que cruza o seu caminho - e que você sempre esquece ser alguém.

eu e Lemos, Nic

menina

- "Sonhei com você. Havia um pé de Jaboticaba no quintal... Fui la pegar frutinha, né? E você estava lá no topo e dizia: 'Sobe também!'."

menino

- "Eu tive o mesmo sonho, só que era um pé de amora. E depois nos outros sonhos que tive contigo você estava com manchas da fruta nas mãos, só para me lembrar do dia que passamos no seu quintal... Como se a possibilidade de eu esquecer existisse."


Persuasão

Meu corpo pequeno em torno do seu, entorna a vontade que tenho nos seios, nas coxas, no dorso e quadril.

Teu balanço inquietante e desonesto de quem não quer se soltar, meu ombro que não precisa de proteção mas o deixa achar que sim, porque é tão bom, baby?

Você diz você é má.

Eu digo não.

O sol não vem. Põe tua mão na minha mão. Descansa e dorme, porque o sol não vem...



anatomia

Meus ombros estreitos, meu colo cheio, meus braços abertos

e tu
que não vens...

feijão

Nunca foi fácil acreditar que daria certo. Achei bobo a professora falando daquele modo e senti vontade de rir. Hoje já penso "como pude ser tão esnobe?". Mas fui. Quebrei a cara, claro. Quando o pezinho de feijão brotou do meio do algodão lá no meu quarto senti vontade de chorar, pedir desculpas pra professora ou qualquer coisa assim. Acabei por plantar mais uns 10 pezinhos de feijão em algodão. Minha forma de me redimir, e de me desculpar. Acho bom as lições que essas coisas pequenininhas dão na gente. O que eu fiz com os meus pezinhos de feijão não me lembro mais... Longos anos se passaram. Provavelmente foram jogados fora, ou comidos pelo cachorro... Mas não duvidaria se me dissessem que deles brotaram muitos feijões, que matam a fome dessa gente.