Santa Maria


Gostam de me ver chorando. Jogam na TV, perguntam os porquês, como conseguirei continuar. Desnudam meu rosto em rede nacional e imploram por lágrimas. Pedem que explique o que mal cabe no peito. Não entendem que palavras são limitadas, que frases são insuficientes. Querem sentir a minha dor, chorar minhas lágrimas, enterrar meus filhos. Querem entrar na minha casa e invadir minha cama, meu banheiro, minha cozinha. Querem explorar meu sofrimento que de tão doído me deixou muda. Me tornou um rosto choroso na TV ao lado de um repórter que me exige: "O que sente agora?".

Não há sentimento. Não há nada. 

Você jamais entenderia.

Sabiá - laranjeira

Falei de amor
com um sabiá-laranjeira
que no pé de uma árvore
cantava.

E seu canto
me lembrou de outro canto
de um outro encontro
onde me apaixonava.

Meu sabiá
não faças assim
não judie de um coração
que não cabe mais em mim.

Foi quando ele me confidenciou:
menina miúda
só não sofre nessa vida
quem cantarolar assim.






Os pés sambam
a coragem que
o corpo não tem.

Pìrulitos e outras delícias

- Cara eu preciso te falar uma coisa...
- Hm?
- Eu sou biscate.
- Como assim?
- Pois é cara, descobri, sou biscate.
- ...
- Eu choro, sabe? Às vezes fico muito sentida...
- Por que?
- Nínguem vai querer me namorar.
- Não deve ser fácil ser biscate...
- Não é mesmo... Mas eu me assumi, sabe?
- Uhum.
- Eu me aceito como sou, eu sou feliz assim.
- Que bom.
- Minha amiga me ajudou... Falou assim: 'É natural, eu sou biscate, você também é'.
- É muito bom ter com quem contar.
- Nossa, é demais viu? Eu sou outra pessoa.
- Tô feliz por você, tá?
- 'Brigada, viu?