não há tranca no meu coração

Nunca achei que camas compartilhadas combinassem com despedidas banhadas em lágrimas, quando tudo o que sempre espero do seu corpo é suor e saliva. E foi assim que te deixei naquela noite de novembro, descansado e fatigado, perdido em um corpo molhado e uma mente adormecida que delirava em lençóis vermelhos amarrotados - lembro de ficar curiosa em saber o que sonhava. Parecia cena de filme barato e clichê, porém com tantos poréns... Eu não era mocinha, e não acreditava em despedidas e juras de amor eterno. Te deixei e fui: sem sussurros em seus ouvidos adormecidos, sem expectativas irreais, sem futuro, somente com a lembrança de uma pele macia e um par de olhos que tudo me falavam. E notei naquele momento que nunca ninguém, jamais, havia sido amado tanto assim. Saí sem bater a porta, a deixei entreaberta, pra um filete de saudade entrar e banhar seu corpo de sol e te lembrar sempre que a qualquer momento eu posso voltar.
O céu pinta-se de laranja
minha boca de vermelho
pernas pretas de arrastão
choro azul
em um mar de olhos castanhos,
a vontade é sempre branca.

uma história de amor

Seu olhar cruzou divertido com o meu às 7:00 horas de uma manhã de quinta-feira -Quem olha sorridente numa hora dessas?- te perguntei e você não quis responder, e agora depois de tantos anos confesso que me deu vontade de te fazer cócegas, a qual controlei bem, rezam os fatos. 

Fui prudente, não me perdi instantaneamente em sua lábia, mesmo que quisesse, concedi à você o prazer da trabalhada conquista, deixando um olhar de falsa represália nas brincadeiras de cunho mais intimo, nas investidas mais ousadas, mais libidinosas. Acho que foi aí, no olhar corrugado que você soube que já era sua.

E então os papéis se trocaram -certo? Eu fingia não te amar e você fingia não me possuir. Jogo atrevido que travamos por longos anos pela sempre certa 'batedeira' que causava. Que emoção! Você era meu, eu era sua. E era tudo ponto final. Esquecemos das reticências...

Não tomamos sol nem chuva. Não nos arriscamos nos perigosos penhascos que a vida a dois propicia, nos amamos em silêncio, sem perigo e por isso, para sempre.

da sua, sempre sua

era tão estranho te olhar dentro dos olhos

Tínhamos um trato: você me amaria e em troca te perdoaria pelos erros do passado. Não soube onde deixar as mãos quando fui dar o adeus... Aquele gesto se tornou tão vazio, quase que profano.

Senti vergonha pelo Amor usado e barato que te ofereci. Tão desarrumado, imundo, tão sem graça, insosso, tão sem vontade. Eu sabia que poderia te amar mais e melhor do que fazia, mas a vontade jazia estancada no vão da porta, não a deixando fechar completamente.

Gostava de ver teus olhos marejados e imaginar você rolando pela cama a noite, cheio de vontade de me ter, sem orgulho, sem auto-respeito. Sentia que assim estaria sendo vingada pelas vezes que chorei e você nada sentiu, nada fez.

Agora olho pela janela. O céu possui esta cor azul-esbranquiçada, acredito que assim ele se absolve de nossa cumplicidade... E não faz mais dias cinzentos como os que eu vi.

amores imperfeitos são as flores da estação

_Me fartei das reivindicações e protestos que meu corpo juvenil lutou por esses anos. A boca-suja sempre dá um ar desbocado e destemido mas a vida não é apenas isso, companheiro.

_Quando me vi em amores pela primeira vez a politicagem deixou de interessar e me vi besta e perdida por esse mundo labiríntico em que roda o coração.
-Coisa idiota de ser mulher-
_E então a boca dantes racional se pega muda por não saber o que dizer. O cérebro deixa de funcionar e vira uma pasta amorfa, nos tornamos seres incapazes de pensar.
-O nariz sim ganha nova função importante e fundamental: se deixar suspirar a cada acorde ouvido ou lembrança resguardada-

Não quero um amor perfeito e não o espero. Deixarei os príncipes encantados àquelas que neles acreditam, não usurparei lugar de princesa alguma -sou mais do tipo cigana-

Tenho meus corações machucados e usados. Ninguém é perfeito, nem eu. Mas eu sou feliz. 

não acredito em eu te amo

Fazia sol quando desisti de amar. E talvez seu objetivo fosse aquecer um pouco meu coração e movê-lo à oposta decisão, -ame!, porém tarde demais, inútil. Me dei conta do peso que trago no peito, tão maravilhado, tão infeliz como os infelizes que amam e não tem sossego e rolam em suas camas nas noites quentes tão mais quentes com corações em brasa... Foi isso: deixei de amar. Meus dias seguirão cinzas e olharei as flores com outros olhos, olhos estes que por si só fariam primavera em uma vida. Vida que se negou a aceitar. Vida esta que agora carrega no peito uma pedra fria, sem emoção.

Não acredito mais em eu te amo,


Desculpe meus modos desastrados. Descobri que posso incumbir a culpa a algo inerente à vida: o tempo. É isso. Tenho pouco tempo de existência nesse mundo cristão. Então, moço, desculpe meus modos desastrados. Minha juventude cisma em passar depressa, e depressa com ela movem-se minhas mãos, que seguram meus dias apertadamente entre os dedos, para que eles não escapem numa curta noite qualquer, enquanto derrubo tudo à minha volta. Desculpe meu sexo agitado. Talvez ainda não tenha aprendido direito, talvez ainda não tenha desaprendido, deixado maquinado, programado, então, seu moço, desculpe meu sexo irritado. Desculpe meus olhos desinteressados. Há um pássaro que voa longe no céu, tão alto, mas tão alto que não é possível imaginar. Ele voa enquanto outros, não como eu, caminham apressados para seus trabalhos, com seus olhos focados, chatos, então, moço, desculpe meus olhos desinteressados. Desculpe meu coração acelerado, que diz sempre - vai!, e me impede de ficar. Ficar ao seu lado. Desculpe, moço, agarrei-me à vida como você, que tanto se agarra ao passado.
Sério que ainda existe gente condenada a acreditar que estamos destinados à almas gêmeas? Contos de fada são entediantes até quando em desenhos. Não somos assim, predestinados, caminhos traçados, rotas definidas. Não podemos ser. Qual é a graça? Eu quero é poder cruzar com um desconhecido na rua e ter a pretensão de que ele me faria cócegas até não aguentar mais, mas que não mexeria na minha gaveta de escrituras. Quero poder trocar olhares, inventar amores, martirizar histórias não vividas, amar desconhecidos, outros e tantos que nunca vi, nunca saberei. Quero transar sem compromisso, me doar sem expectativas, acreditar em mil amores. Não posso e não vou trilhar uma vida à espreita, à espera da vontade arrogante do destino de achar que ele, este pobre coitado, seria capaz de me completar. Completar? Metade da laranja, mesmo? Eu quero é acordar em cada manhã poder olhar no espelho e saber: o amor da minha vida tá ali, refletido. E seguir o meu caminho...
Queria lhe contar a estória de uma menina que nasceu neste mesmo mundo que você, cresceu, amou, viveu, teve seu coração partido e sofreu, como tantas vezes você também o teve. E corações partidos, todos sabemos, não são providos apenas pelos dissabores que paixões de acampamentos de verão nos despertam, mas também pelas frustrações das expectativas reais e irreais, dos dias de chuva em que não se há um bom edredom pra socar-se embaixo, das manhãs corridas que temos que pular o café - E como dói! E esta menina viu-se perdida tantas vezes, pra reencontrar-se outras tantas e saber que logo no próximo ponto em que descesse seu coração seguiria à esquerda e ela rumaria à direita, porque é sempre complicado chegar a um acordo, mesmo quando com nós mesmos. Ela cresceu, amou, sofreu, como tantas vezes você também, meu amor. E o que eu quero te mostrar com tudo isso é que, não importa o tipo de grafia, a quantidade de parágrafos, não importa se papiro ou se papel, se conto ou se romance, nada disso importa. Há histórias em cada par de olhos apressados que você cruza tantas e tantas vezes, também apressadamente. E são excelentes histórias, tenho certeza. Assim sendo, caro leitor, te questiono: você leria comigo um bom livro? Estampado na pele de cada pessoa anônima que cruza o seu caminho - e que você sempre esquece ser alguém.

eu e Lemos, Nic

menina

- "Sonhei com você. Havia um pé de Jaboticaba no quintal... Fui la pegar frutinha, né? E você estava lá no topo e dizia: 'Sobe também!'."

menino

- "Eu tive o mesmo sonho, só que era um pé de amora. E depois nos outros sonhos que tive contigo você estava com manchas da fruta nas mãos, só para me lembrar do dia que passamos no seu quintal... Como se a possibilidade de eu esquecer existisse."


Persuasão

Meu corpo pequeno em torno do seu, entorna a vontade que tenho nos seios, nas coxas, no dorso e quadril.

Teu balanço inquietante e desonesto de quem não quer se soltar, meu ombro que não precisa de proteção mas o deixa achar que sim, porque é tão bom, baby?

Você diz você é má.

Eu digo não.

O sol não vem. Põe tua mão na minha mão. Descansa e dorme, porque o sol não vem...



anatomia

Meus ombros estreitos, meu colo cheio, meus braços abertos

e tu
que não vens...

feijão

Nunca foi fácil acreditar que daria certo. Achei bobo a professora falando daquele modo e senti vontade de rir. Hoje já penso "como pude ser tão esnobe?". Mas fui. Quebrei a cara, claro. Quando o pezinho de feijão brotou do meio do algodão lá no meu quarto senti vontade de chorar, pedir desculpas pra professora ou qualquer coisa assim. Acabei por plantar mais uns 10 pezinhos de feijão em algodão. Minha forma de me redimir, e de me desculpar. Acho bom as lições que essas coisas pequenininhas dão na gente. O que eu fiz com os meus pezinhos de feijão não me lembro mais... Longos anos se passaram. Provavelmente foram jogados fora, ou comidos pelo cachorro... Mas não duvidaria se me dissessem que deles brotaram muitos feijões, que matam a fome dessa gente.
E quando meus sonhos
pesarem mais que minhas asas puderem aguentar
eu voo raso
mas não piso no chão.
Viu e não falou nada, deixou-me acreditar que cacos de vidro eram diamantes. 
Justificou-se como quem perdoa a si mesmo, e para ti bastava. 
Bastei-me. 


você era de direita e eu de esquerda 
- demos as mãos -


E num comichão de curiosidade subi-me pela espinha e saí boca afora
avoei pra longe n'onde se esconde esse tal crescer-se.


Restou o casco e o acaso.
 O cerne de uma menina que dantes era
e agora
foi.
Quem disse que só bala mata errou o alvo. Morri de amor pra renascer - e morrer de novo.
Eu moraria em você. Nesses braços que esticam os músculos ao acordar, na altivez das decisões ébrias de madrugadas desimportantes. Te ensinaria o sim pelo não e a abrir os olhos com a calma de quem ainda não tem certeza que enxergará. Moraria em sua língua no amargar do café sem açúcar - esse baque de realidade que já nos ensinaram: "a vida não é doce". Moraria sim, menino. Nesse cômodo desarrumado que você chama coração.
Ela estava sentada na varanda - cadeira de fio e sol poente - e se banhava, tal qual seu cão, no calor morno e gentil que se despedia do dia. E ali, pareceu por um segundo, que sua tristeza de tão grande não lhe caberia no peito e como um câncer tomaria seu corpo. Notou que olhava para a porta - ansiosa e à procura - de alguém que saísse por ali, adentrasse aquela mesma varanda e visse seu sofrimento, compadece-se de sua alma e zelasse por seu coração. E viu então, com o corpo em brasa, num relance de lucidez, que pior que ser só é a solidão. Levantou-se e entrou na casa, pela mesma porta que esperava que alguém saísse, porque percebeu. Ela viu. Que a vida, em sua maioria, não é buscada do lado de fora. Nós a encontramos do lado de dentro, em nós mesmos. Não há tempo a perder.
Tenho medo da dor. Da dor da partida, da dor da espera, da dor da perda.Tenho medo da dor de um filho, da dor de não ser criança, da dor de dizer não. Tenho medo da dor da mentira, da dor da desesperança, da dor do desamparo. Tenho medo da dor da doença, da dor do luto, da dor da solidão. Tenho medo da dor porque por mais que a tenha experimentado, provado, mastigado, não me acostumo. Não me acabam as lágrimas. Não me deixa o passado. Tenho medo da dor porque por mais que seja igual, é diferente. Por mais que tenha ido embora, ainda está. Por mais que eu diga - não tenho medo, não se afasta. Então, tenho medo da dor. Porque como uma sombra ela te acoberta. Te dá coragem, e te lembra sempre: você é um corpo, eu sou você.

Processo destrutivo,
substantivo feminino,
mulher.


O assunto se encerrou nas montanhas. O que poderia dizer? Não haveria nada. Montanhas não sentem medo. Não se sentem desprotegidas ou desamparadas. Elas não choram. Acho que me cairia bem. Far-me-ia mais forte. Rochosa, marcada por inúmeras escaladas, entremeada por incontáveis caminhos. Deflorada e devastada, porém firme.

A Luz de Lucy

Tenho impressão de que quando a vi a primeira vez ela estava de cabeça para baixo... devem ter sido os olhos apertados de sol e que ao mesmo tempo dispensavam tanto o brilho dele.


_Tão gentis, hostis, como algo que te chama e você sente medo de se achegar_


Era Lucy.

Quando me vi cantando ao passar por um poste que se apagava

Lucy in the sky with diamonds
diamonds

Eram diamantes.
Era Luz.

Ela era uma menina que procurava o brilho da lua no céu,
se tornou mulher quando descobriu que tinha diamantes nos olhos.


Deixou-se Lucy
Minha Ana-Luz
Palavras que não se calam
despidos lábios finos.
Do teu nariz o suspiro
de algo mal resolvido.
E os olhos?
Ah, os olhos:
estes já não fazem mais sentido.



Percorre sua mão em meu seio e desce ao ventre despropositalmente
porque
não queres,
- não quero
não pode.

Enche-a em minha cintura e afunda nos meus quadris
Suas mãos,
seus dedos,
seu tato tão fino
inconsequente.

Desliza, coça, arranha, belisca,
judia de mim.

Provoca-me, com esses dedos finos, menino
que digo
- é noite

e vamos.

Desce, vai!

É inevitável.
Dentro do ônibus simplesmente não consigo não imaginar as pessoas dançando pole dance enquanto se seguram naqueles ferros...Mas devo admitir que os velhinhos e as senhoras muito gordas me deixam constrangida.

Situações

O casal de namorados, sala de tv.

- Ô meu denguinho, meu docinho, xuxu.
(silêncio)

- Guti guti, amor, rainha do meu paraíso.
(silêncio)

- Dona da minha vida, minha neguinha.
(silêncio)

- Você sabe que eu daria a minha vida por você, não é?
(Pequeno murmúrio)

- Você daria a sua?
- Não.

(silêncio)

-Que chato né?

Mãos






















"Não se esquecer, para que não se repita."

- Eu tô largando meu marido.

Foi assim. Sem um 'oi', sem apresentações, sem afinidades. Ela estava largando o marido. Mas além de largar o marido ela estava me comunicando que o fazia.
Como não disse nada, prosseguiu:

- A gente ficou casado quatro meses só.
- Entendo.
- Agora eu tô indo embora. Tô largando ele.

Não sabia se perguntava o motivo do desenlace, talvez não devesse, talvez fosse doloroso, mas enquanto pensava ela logo contou:

- A gente morava na minha sogra.
- Ah...
- Ele não sabe viver sem a família. A família controla ele. Eu disse: ou eu ou a sua mãe. Ele ficou com a mãe.

Ele ficou com a mãe, meu Deus. Ele ficou com a mãe. Que espécie de homem fica com a mãe?

- Ficou lá. Ela não gosta de mim, ela controla ele.
- Sogras...

Ela me olhava. E me implorava qualquer conselho, qualquer consolo. Seus olhos me diziam: diga para eu ficar, para tentar recomeçar, tentar novamente. Diga que não é preciso tanto drama, que as coisas se ajeitarão. Diga que ele me ama e eu o amo também e que apesar de nossos tortos caminhos nós estaremos seguros um entrelaçado nos braços do outro.
E eu disse:

- Você agiu bem.

Ela se abaixou, pegou a sacola pequena e entrou no ônibus. Sem lágrimas, sem medo. Dando o primeiro passo para seu caminho de liberdade.
Eu queria ser um pouco como ela.
Me doeu o modo como você me beijou pela última vez,
o jeito triste que seus dedos brincaram em meus cabelos vermelhos
como um velho fogo que queimou e não arde mais.

Disseram-me que era preciso achar-se em outro alguém porque só assim o mundo ficaria correto, eu acredito mas não consigo.

Me doeu acordar e deparar-me com aquela pilha de livros que estão ali, somente esperando sua volta para casa, onde não vive mais.

Me doeu acreditar que era possível, mas não dói mais.
Acho que sonhei com você essa noite, mas só acho. Não posso te contar detalhes desse meu supor porque talvez apenas tenha dormido com sua imagem na memória e acordado com ela na lembrança - meio apagada nos tantos planos que fizemos e não concretizamos. Essas nuvens de passado que neblinam nosso amanhecer.

Hoje acordei e estava fazendo frio: aquele de pintar o nariz de vermelho e endurecer os dedos


Lembrei que quando fazia tempos assim, você aparecia com meias nas mãos -"Não tenho luvas, ué. Sinto frio". E você deixava eu por as minhas mãos nas suas para esquentar também. E nesse frio da manhã de hoje eu senti falta de você, Meu Amigo... E me peguei lembrando de nós e de todo amor que você me ofereceu e eu, grata, aceitei. E tive a certeza de que, todos os dias, nesses pequenos detalhes, lembrarei de você. Que a saudade vai doer como dói agora. Que o nó na garganta vai apertar e que eu engolirei o choro e continuarei andando... Você só me deu alegrias, você sempre me manteve quente.

Perdi um amigo. Um dos bons. Um daqueles que a gente inclui quando conta nos dedos. E agora que ele se foi, me sobram dedos nas mãos. Mas elas continuam protegidas com as meias, tudo bem? Sempre estarão.

Sinto sua falta, Te amo.

noitinha

- Você podia me dar um beijo na nuca. Mil beijos na nuca. Eu não me importaria. Beijos na nuca combinam com esse tempo frio. Dá um arrepio que faz querer sumir embaixo do cobertor antigo e empoeirado... Faz assim mesmo... Coloca um filme aí pra nós que eu vou pegar uma garrafa de vinho. A gente bebe e brinca com nossos pés. Você quer dormir comigo hoje?

assim como as estações amores estão sujeitos a mudanças

Você já amou alguém? Mas não digo deste amor mascarado, que inventamos para não nos sentirmos tão sós neste mundo onde estar sozinho é tão cruel e estar acompanhado se torna objetivo de uma vaidade repreensível. Nunca se soube definir bem o Amor, afinal ninguém sabe o que realmente ele é. Poderia definir como carinho e vontade, misturados num quê de posse que somente os amados entenderiam. Em outras palavras: Bobo. O Amor é bobo. Te faz ficar olhando uma pessoa dormir apenas pelo prazer de estudar sua respiração e ao mesmo tempo te faz xingar e gritar por um motivo ignorável. Mas isto é amar alguém? Amei todos os homens de minha vida. Amei meus pais. Amei pessoas que cruzei em travessias de ruas apressadas e velhas senhoras com as quais compartilhei assentos em ônibus à caminho de casa. Amei personagens, amei criaturas. Amei meus amigos e amei a Deus. Amei histórias de vida. Amei a mim mesma. Como poderia definir amor quando nem aos meus próprios inimigos soube odiar? Questiono a nobreza deste agora. O tempo reformula e muda tudo. Nada é estável. O seu Amor de agora não será o mesmo Amor de amanhã. Ele está sujeito a aumentos, mudanças de estado e declínio. Porém, Amores serão sempre amáveis.

A bailarina

Das grades ao muro ela dançava. Era um movimento oblíquo, um tanto de 30º que entortaria o pescoço de quem tentasse admirar, mas estava sozinha na rua, junto somente dos ratos que habitam os esgotos nas madrugadas mais quentes. E era uma dessas, onde o cabelo cola na nuca e o suor escorre clavícula abaixo, deixando intimidantes os seios empapados que naquele momento arfavam. O coração palpitava, gritante e tinha a impressão de que poderia ouví-lo e até mesmo sentí-lo sem o mínimo de esforço. Ao notar quão estúpida era esta minha pretensão fingi apenas que sim, ouvia seu coração palpitar. Tum. Tá. Tum. Tá. E ela rodava, girava, dançava, by herself com os pés na rua.
- Cláudia, pára com isso Cláudia. Não aguento mais Cláudia, todo dia é a mesma coisa. Essa esfregação de chão, esse cabelo despenteado. Não foi assim que eu te conheci, Cláudia. Larga esse pano de chão, 'tô falando com você. Não precisa cozinhar hoje não. Não adianta reclamar, não quero sua comida. Como você tá repetitiva... Sinto sua falta, Cláudia. Cadê a Claudinha que eu conheci? De rabo-de-cavalo e chiclé de goma? Eram bons tempos Cláudia... Desliga essa televisão, tô falando com você. Quer sair pra dançar? Você gostava tanto do pagode... Que mané lavar roupa, Cláudia. Não tá me ouvindo não? Sinto falta da Claudinha. Num quero uma empregada não, Cláudia. Que ir embora o que Cláudia. Não vou embora não, tá louca? Essa casa é minha também. Os filhos são meus também... Claudia... Claudinha... Fica calma Claudinha... Não, eu gosto de você sim, Claudinha... Fala assim não Meu Bem... Ô Claudinha, só queria te distrair um pouco... Tá, tá bom, vai lá passar o rosbife. Tá bom, tá bom, vou assistir meu futebol quieto aqui... Não reclamo mais não, tá? Te amo Claudinha.

Minha bunda flácida


Olá! Hoje resolvi contar algumas verdades sobre mim... Especificamente, sobre meu corpo.
Sou magra, não porque vivo de dietas nããão, sou magra de ruim mesmo. E DETESTO ser magra. Nenhuma mulher realmente magra gosta de ser magra. Mas o que mais me fascina, mais me deixa deliciada é que eu sou uma magra barriguda. ISSO MESMO, sou magrela, mas a barriguinha tá aqui, sempre comigo, minha pochete, companheira, graças a deus ainda sem zíper. Agora, a melhor parte: sou flácida. Aí você pensa: gente, como assim flácida? Ela não é magra? Pois é. Sou flácida, uma brincadeira não sóbria da evolução. Não tenho bunda, e o meu projeto de bumbum é flácido. Minhas pernas são finas, minha coxa é mole. E tenho estrias, MUITAS estrias. Meu peito parou de crescer quando eu tinha 8 anos de idade. Pra você também ter uma ideia. É uma coisa deliciosa de se olhar... Um deleite. Estou longe de ser gostosa, longe de ser uma mulher melancia (Deus me livre!) ou uma dançarina de bumbum grande. Não vou falar que não queria ter as coxas da Ivete, porque não sou mentirosa, mas também o ter ou não ter não me faz diferença.
Estou extremamente feliz assim, e de bom agrado.
Esse post é pra todas as mulheres que seguem um padrão de beleza tão inatingível, falsificado e pleiteado por aí.

Mulher de verdade?
Mulher de verdade tem celulite, meu bem.
ontem vontade
hoje
saudade

Com licença, posso fazer xixi?

A evolução do ir ao banheiro é realmente notável na história da humanidade.
Quando pequenos, em nossos referidos jardins-de-infância o pudor era uma utopia e falávamos em alto e bom som às nossas queridas professoras nossas necessidades fisiológicas. "Tia, quero fazer xixi.", "Preciso fazer cocô". Quando estes não aconteciam acidentalmente dentro da própria classe, claro.
O tempo se passou, crescemos e claro, as boas maneiras fizeram com que nós, garotas, fôssemos mais delicadas ao fazer nossos pedidos. Nunca trespassamos a linha do "Professora, preciso ir ao banheiro", raríssimos "Professora, preciso fazer xixi" mas apenas com muita insistência da parte autoritária e nunca, nunca passando disso. Mas claro que existiam eles, os ogros. E aqui me refiro aos garotos, porque claro, essa população e sua córdia hostil só podem pertencer a um escalão mais baixo e profano.
E os ogros não possuem muito tato ao falar: "Quero mijá", "Preciso cagá", ou outros piores como "Preciso cortar o rabo do macaco" o que me remete ao mais terríveis eufemismos para a necessidade mais básica e comum de todos os tempos: a utilização do espaço sanitário. "Escorregar o moreno", "Passar um fax" soam comuns nessas bocas ao invés da delicadeza feminina do "Nº1" e "Nº2".
Bem, portanto fica a questão: como falar? Se for tão complicado assim, apenas não fale. Mas se escutar por aí um "Com licença, preciso liberar água e uréia pelo meu canal uretral": Relaxa, é só fazer xixi.

Obs: Perdi o texto original e tentei reescrevê-lo, mas não ficou perfeito. Se alguém possuir uma cópia do original agradeceria se me fosse enviada.


Do amor resta pouco, resta o que basta. Porque na verdade o aconchego e carinho é apenas o começo, uma trilha que pode ou não ser traçada, e não obrigações como se vê ditado por aí. O amor é o que sobra depois. O ardido, nostálgico e desregrado. É a certeza de saber o outro bem, mesmo que não mais ao seu lado. É a certeza de que o mundo deu certo, e deu certo porque você esteve nele. Esquecido e mal tratado, como a gente sempre foi.

ambições

O cérebro convence o corpo que é melhor se sentar, as ideias fluem melhor. Os pensamentos estão sempre na cabeça mas as palavras não discorrem da língua tão facilmente agora - um pervertido que de repente se viu envergonhado.

Sigo tão fiel e cegamente na esperança já tão ínfima de que, sim, deve haver um motivo: minha presença alterou o espaço e tempo e assim alguém, no outro lado do mundo, quem sabe uma menina, que chorava por não saber entender se viu completa, abriu os olhos e viu. E compreendeu todas as coisas. E finalmente, pode dormir em paz.

E eu cumpri meu papel. No minuto do nascimento.

Siriricando por aí

- Siririca.
- Oi?
- Não é engraçado? Siririca.
- "Parece nome de caranguejo."
(silêncio)
- Você faz?
- Hm.
- Você faz!
- Todo mundo faz.
- Homens não fazem...
- Ainda bem.
(silêncio)
- E você?
- Oi?
- Siririca.
- Eu?! Claro que não.
(silêncio)
- As que falam que não são as que mais fazem.
- Hm.

Santa Maria


Gostam de me ver chorando. Jogam na TV, perguntam os porquês, como conseguirei continuar. Desnudam meu rosto em rede nacional e imploram por lágrimas. Pedem que explique o que mal cabe no peito. Não entendem que palavras são limitadas, que frases são insuficientes. Querem sentir a minha dor, chorar minhas lágrimas, enterrar meus filhos. Querem entrar na minha casa e invadir minha cama, meu banheiro, minha cozinha. Querem explorar meu sofrimento que de tão doído me deixou muda. Me tornou um rosto choroso na TV ao lado de um repórter que me exige: "O que sente agora?".

Não há sentimento. Não há nada. 

Você jamais entenderia.

Sabiá - laranjeira

Falei de amor
com um sabiá-laranjeira
que no pé de uma árvore
cantava.

E seu canto
me lembrou de outro canto
de um outro encontro
onde me apaixonava.

Meu sabiá
não faças assim
não judie de um coração
que não cabe mais em mim.

Foi quando ele me confidenciou:
menina miúda
só não sofre nessa vida
quem cantarolar assim.






Os pés sambam
a coragem que
o corpo não tem.

Pìrulitos e outras delícias

- Cara eu preciso te falar uma coisa...
- Hm?
- Eu sou biscate.
- Como assim?
- Pois é cara, descobri, sou biscate.
- ...
- Eu choro, sabe? Às vezes fico muito sentida...
- Por que?
- Nínguem vai querer me namorar.
- Não deve ser fácil ser biscate...
- Não é mesmo... Mas eu me assumi, sabe?
- Uhum.
- Eu me aceito como sou, eu sou feliz assim.
- Que bom.
- Minha amiga me ajudou... Falou assim: 'É natural, eu sou biscate, você também é'.
- É muito bom ter com quem contar.
- Nossa, é demais viu? Eu sou outra pessoa.
- Tô feliz por você, tá?
- 'Brigada, viu?